Volta às aulas: O desafio emocional por trás das mochilas novas

O cheiro de caderno novo e o reencontro com amigos trazem alegria, mas para muitas crianças, o início do ano letivo é sinônimo de frio na barriga e noites mal dormidas. Sintomas físicos como dores de cabeça ou de estômago são manifestações comuns de um sistema emocional em alerta. Segundo orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a transição das férias para a escola impacta todo o núcleo familiar.
Letânia Busatto, psicóloga pós-graduada em Terapia Cognitivo-Comportamental, afirma que esses comportamentos não devem ser vistos como “birra” ou falta de vontade, mas como manifestações emocionais que pedem escuta e acolhimento. “Como psicóloga, observo que a volta às aulas não afeta apenas a criança individualmente, mas todo o sistema familiar. Para alguns filhos, esse momento representa separação, novas exigências, mudanças de rotina e expectativas internas e externas. Quando o ambiente emocional é seguro, a adaptação tende a acontecer de forma mais saudável”.
ORIENTAÇÕES
Para transformar o medo em confiança, a psicóloga recomenda alguns pilares fundamentais. O primeiro é o acolhimento emocional, a prática de ouvir antes de orientar. “Ouvir o que a criança sente, sem julgamentos ou minimizações, é fundamental. Validar emoções não significa reforçar o medo, mas reconhecer que ele existe. Frases como “eu entendo que você esteja se sentindo assim” ou “é normal ficar inseguro no começo” ajudam a reduzir a ansiedade e fortalecem o vínculo entre pais e filhos.Quando a criança se sente emocionalmente acolhida, ela desenvolve mais confiança, aprende a lidar melhor com frustrações e constrói recursos internos para enfrentar desafios”.
O segundo passo é a reorganização da rotina. “Crianças precisam de previsibilidade para se sentirem seguras. Horários regulares para dormir, estudar e brincar ajudam o cérebro a se reorganizar após o período de férias”.
Letânia reforça que preparar o material escolar na noite anterior, manter um ambiente tranqüilo para os estudos e cuidar da qualidade do sono são atitudes simples, mas extremamente eficazes na redução do estresse e da ansiedade.
DIÁLOGO E VÍNCULOS
O diálogo é sempre importante. A psicóloga destaca que manter um diálogo aberto e contínuo permite que a criança expresse suas emoções e preocupações. “Perguntar como foi o dia, demonstrar interesse genuíno e estar disponível emocionalmente cria um espaço de confiança e pertencimento”.
Observa ainda que nem sempre os pais precisam ter respostas prontas. “Muitas vezes, escutar, validar e caminhar junto é mais importante do que resolver imediatamente. Esse processo ajuda a criança a desenvolver autonomia emocional e habilidades de resolução de problemas”.
De acordo com a psicóloga, a adaptação escolar também passa pela criação de laços. Incentivar amizades, participar de eventos escolares e estimular atividades extracurriculares contribuem para o desenvolvimento emocional e social. “Quando a criança se sente pertencente e conectada, a escola deixa de ser um ambiente ameaçador e passa a ser um espaço de crescimento e aprendizado”.
AUTONOMIA
Letânia afirma que incentivar a autonomia é preparar a criança para a vida. Entretanto, isso deve ser feito respeitando a idade e o desenvolvimento da criança, o que é fundamental. “Permitir pequenas escolhas — como o lanche ou a organização do material escolar — fortalece a autoestima e a sensação de competência”.
Frisa que autonomia não é ausência de cuidado, mas a construção gradual da independência, com a certeza de que existe um adulto disponível para apoiar quando necessário. “Cada criança tem seu próprio tempo de adaptação. Com acolhimento, diálogo, rotina e apoio emocional, a volta às aulas pode se transformar em uma oportunidade de crescimento, fortalecimento dos vínculos familiares e desenvolvimento emocional saudável.
AUXÍLIO
A psicóloga orienta ainda que o auxílio profissional deve ser buscado quando a ansiedade passa a ser intensa, persistente e interfere na rotina da criança — como recusa frequente em ir à escola, choro excessivo, alterações no sono ou queixas físicas recorrentes. “A psicoterapia oferece um espaço seguro para acolher emoções, fortalecer recursos emocionais e apoiar a criança e a família nesse processo de adaptação”.
Letânia Busatto (CRP 07/12649) mantém atendimento on-line e presencial para crianças, adolescentes e adultos e o contato pode ser feito pelo telefone (55) 98448-8094. Em Santo Ângelo na Rua 15 de Novembro, 1240, na Clínica Psykhe e em Vitoria das Missões na Rua dos Imigrantes, 1142.
Redação Grupo Missões

