Tolerância a frustrações
Cá estou eu. Caneta de tinteiro, redigindo esta crônica, frustrado com o inverno que acabara de esfriar o meu café. Que seria do meu almoço, se não houvesse o frio para germinar o arroz, que costumeiramente ocupa um terço do meu prato. Que infantilidade a minha.
Não diferente a tal, ouço dezenas de lamúrias diárias de intempéries nas vidas de tantos que usualmente enfrentam a problemática como uma formiga enxerga um elefante. As paredes do meu consultório, vocês já sabem, também.
O vestido que Maria tanto fizera gosto não mais do seu tamanho se disponibiliza na célebre loja da Avenida Paulista. Que decepção, Ó Maria. Como agora apresentar-te-ás ao casamento de sua amiga, pela qual guarda tanto prestígio? Esquece-te Maria, que seu guarda-roupas não mais sustenta tamanha quantidade de vestes de tecidos fluidos matrimoniais e pede um suspiro de ar.
João, aquele mesmo do violão da crônica passada, cedeu seu carro para a esposa laborar. Acontece que, sorrateiramente, a um dos aros traseiros tornou aparente um risco na roda, daqueles que o meio fio da calçada costuma imprimir àqueles que se esforçam em estacionar com primor longe do meio da avenida, tentando poupar o retrovisor de um sinistro. João não mais vê alegria em seu elegante veículo. Suas retinas enxergam sua esposa ativamente riscando uma roda, ora horrenda e disforme, na qual um carro veio acolado. Que tristeza, ó João.
A câmera do celular novo de Alice, insistemente, tenta registrar fotos da lua, em meio à nevoa que se adensa ao inicio de um junho gelado. Foram custosas as noites de trabalho que se agruparam financeiramente para financiar aquele aparelho que hoje é motivo de desencanto e fracasso. Apenas um ponto luminoso em meio a uma imensidão escura é avistado em meio à grande tela que ocupa sua mão rica em adornos anelares. Que malogro, ó Alice.
Perder em grande parte das vezes é ganhar.
O revés ensina o que o sucesso ainda não aprendeu.
E àqueles em que a vida em sua habilidade não o conseguiu, a morte o faz.
Ela que zomba com nossas frustrações. Que distingue o primordial do secundário. O elementar do irrelevante.
Ela que mesmo com o maior poderio do mundo não permite a compra de um novo vestido, uma nova roda ou uma nova câmera.
O ar fúnebre que coloca todos a refletir. Não esqueçamos da pandemia.
Volto na semana que vem. Estou indo aquecer a xícara. E desejo que muitos invernos ainda me venham a esfriar meus cafés. Amém!

