Teorema da Felicidade
Estudava matemática com minha filha. Na mesa, entre lápis, canetas e folhas repletas de cálculos, reapareceram velhos fantasmas escolares: função, produto cartesiano, teoria dos conjuntos, etc.
Na singularidade do momento, enquanto Valentina tentava entender como dois elementos podem se relacionar num gráfico, percebi que talvez a felicidade também seja uma equação que se resolve ao longo da vida.
A matemática sempre perseguiu o infinito. E talvez a felicidade more não exatamente no resultado inteiro, mas nas casas depois da vírgula, na descoberta do “x” ou do “y”.
Se ninguém é feliz de forma absoluta, seria a felicidade um número irreal?
A felicidade pode aparecer em frações discretas, até mesmo na variável da ansiedade que determinará o resultado da prova no dia seguinte.
Imagino como os grandes matemáticos tentariam explicar a felicidade. Arquimedes talvez dissesse que ela depende do equilíbrio entre mergulhar na vida e não se deixar afundar pelos próprios pesos. Newton lembraria que toda felicidade exerce uma força sobre nós.
Há pessoas que vivem procurando a fórmula definitiva, como se a vida pudesse caber numa expressão algébrica. Mas talvez a felicidade pertença ao campo da probabilidade.
Os conjuntos ajudam a entender isso. Existe o conjunto das conquistas, o das perdas, o dos medos, o das lembranças. A felicidade não está em um deles isoladamente, mas na interseção improvável entre todos.
Já o produto cartesiano da vida multiplica possibilidades o tempo todo. Cada escolha se cruza com outra, criando combinações infinitas: encontros que quase aconteceram, palavras interrompidas no meio do caminho, sonhos que passaram muito perto da nossa trajetória, mas seguiram em outra direção.
Não sei ao certo se os cálculos e a revisão da matéria contribuíram para a prova de matemática, mas acho que, sem perceber, no silêncio noturno, construímos um singelo teorema da felicidade, algo bem simples, f = x + y, para ser somado na ternura dos dedinhos de uma criança.

