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SANTO ÂNGELO
27 de julho de 2026
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Saúde

Relatório do UNAIDS alerta para risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo

  • julho 27, 2026
  • 6 min read
Relatório do UNAIDS alerta para risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo

Apesar dos avanços inéditos da ciência na prevenção do HIV, a epidemia pode voltar a crescer nos próximos anos caso o financiamento internacional continue em queda. O alerta é do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS), que apresentou o relatório “Unidas e Unidos para acabar com a AIDS” durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.

Segundo o documento, cortes nos investimentos globais, redução dos serviços comunitários e dificuldades de acesso às novas tecnologias de prevenção ameaçam décadas de progresso no enfrentamento da doença.

Embora as infecções e as mortes relacionadas à AIDS tenham atingido os menores índices dos últimos 30 anos, o UNAIDS afirma que o objetivo de eliminar a doença como ameaça à saúde pública até 2030 está em risco.

Em 2025, foram registrados 1,2 milhão de novos casos de HIV e 570 mil mortes relacionadas à AIDS em todo o mundo.

Avanços são desiguais entre os países

O relatório mostra que alguns países avançaram significativamente no combate ao HIV. Sete nações reduziram em quase 80% o número de novas infecções desde 2010, enquanto outras 11 alcançaram as metas internacionais de diagnóstico, tratamento e supressão viral conhecidas como 95-95-95.

Entretanto, o cenário não é uniforme. Em 2025, as novas infecções aumentaram em três regiões do mundo e 21 países registraram crescimento no número de casos.

Além disso, cerca de 22% das 41 milhões de pessoas que vivem com HIV ainda não recebem tratamento, e quase metade das crianças infectadas continua sem acesso à terapia antirretroviral.

Para o UNAIDS, esses números demonstram que os avanços dependem da continuidade dos investimentos e da ampliação do acesso aos serviços de saúde.

Novos medicamentos renovam esperança

O relatório destaca que a ciência vive um momento considerado histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV.

Entre as tecnologias em desenvolvimento ou já disponíveis estão medicamentos injetáveis de aplicação mensal, versões com aplicação a cada seis meses e comprimidos de uso mensal que ainda passam por testes clínicos.

Segundo o UNAIDS, essas alternativas oferecem níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina, mas o principal desafio continua sendo garantir que os medicamentos cheguem às populações mais vulneráveis.

A diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, afirmou que inovação só produz resultados quando há acesso amplo e preços acessíveis.

Brasil amplia prevenção, mas enfrenta desafio com novo medicamento

O relatório cita o Brasil entre os países que ampliaram o uso da profilaxia contra o HIV.

De acordo com o documento, o número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos pelo menos uma vez aumentou 41% no último ano.

Apesar do avanço, o país ainda enfrenta dificuldades para incorporar o lenacapavir, medicamento considerado uma das principais apostas da prevenção.

Embora tenha participado dos estudos clínicos, o Brasil não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária para produção de versões genéricas ou aquisição com preços reduzidos. Diante disso, o governo avalia recorrer ao licenciamento compulsório.

Financiamento internacional registra maior queda da história

O relatório aponta que um dos principais fatores de preocupação é a redução dos recursos destinados ao combate ao HIV.

Em 2025, a ajuda internacional ao desenvolvimento caiu 23%, a maior redução já registrada. Os investimentos específicos para ações de enfrentamento ao HIV passaram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma queda de 18% e o menor volume em quase duas décadas.

Segundo o UNAIDS, a situação afeta principalmente países africanos de baixa renda, muitos deles dependentes de recursos externos para financiar mais de 90% das ações de combate à epidemia.

Cortes afetam serviços comunitários

Os programas comunitários foram um dos setores mais impactados pela redução dos investimentos.

Na África Subsaariana, por exemplo, 80% dos recursos para prevenção tinham origem em financiamento internacional. Em alguns países, essas organizações atendiam até 60% das populações mais vulneráveis ao HIV.

O relatório aponta que, em 47 países analisados, houve redução de 50% nos serviços de apoio à prevenção baseada em medicamentos, queda de 85% no atendimento voltado a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens, redução de 82% dos serviços destinados a profissionais do sexo e diminuição de 72% das ações voltadas a sobreviventes de violência de gênero.

Em alguns locais, o financiamento para distribuição de preservativos caiu mais de 90%.

Criminalização dificulta combate à epidemia

Além da redução dos recursos, o UNAIDS alerta para o aumento da criminalização de grupos considerados mais vulneráveis ao HIV.

Segundo o relatório, atualmente 168 países criminalizam o trabalho sexual, 152 criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas, 66 mantêm leis contra relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo e 14 criminalizam pessoas trans.

Para Winnie Byanyima, essas medidas afastam a população dos serviços de prevenção e tratamento, dificultando o controle da epidemia.

ONU estabelece novas metas até 2030

Apesar dos desafios, 149 Estados-Membros aprovaram, em junho de 2026, uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS, alinhada à Estratégia Global para a AIDS 2026-2031.

Entre as metas para 2030 estão colocar 40 milhões de pessoas em tratamento, ampliar a prevenção medicamentosa para 20 milhões de pessoas e reduzir para menos de 10% os índices de discriminação, desigualdade de gênero e legislações que dificultam o acesso aos serviços de saúde.

Segundo o UNAIDS, o cumprimento dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.

Ao apresentar o relatório, Winnie Byanyima afirmou que o fim da epidemia ainda é possível, mas depende das decisões tomadas pelos governos nos próximos anos. Segundo ela, o mundo precisa retomar os investimentos e ampliar o acesso às novas tecnologias para impedir um novo avanço da doença.

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Carolina Gomes

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