Projeto do novo centro administrativo não pode deixar qualquer dúvida
A retirada de pauta do projeto do novo Centro Administrativo, provocada pelo pedido de vista do vereador Márcio Antunes (MDB) (foto), não deve ser lida como mera manobra política, mas como um necessário exercício de prudência fiscal. Quando o assunto é a alienação da área mais nobre do Município — o terreno do antigo poliesportivo do Elite — a pressa é, invariavelmente, inimiga da boa gestão.
O Legislativo agiu corretamente ao frear a tramitação por um motivo simples: não se assina um cheque em branco com o patrimônio do cidadão. A ausência de dados básicos no texto enviado pelo Executivo é alarmante. Entre as principais lacunas, destacam-se a chamada defasagem imobiliária, pois a avaliação de R$ 8,5 milhões parece ignorar a valorização do mercado atual. Subestimar o valor do terreno seria dilapidar o erário.
A audiência pública da última quinta-feira serviu para colocar alguns dados que não constam do projeto, mas não se pode aprovar um projeto apenas pela explanação oral. Tudo tem que estar no papel.
O argumento central para a construção de um novo centro é a redução de custos com aluguéis e logística. Porém, o prefeito fala em economia anual de R$ 1 milhão e o vereador Lorenzo Tonetto apresenta levantamento falando em R$ 650 mil. Tem que deixar claro qual o valor correto.
Embora a administração argumente que a alienação é apenas o “primeiro passo”, é impossível autorizar a venda de um bem sem ter clareza absoluta sobre o que será erguido, como e a que custo.
Tratando-se de uma área com tamanha relevância estratégica e valor venal, cada centavo e cada metro quadrado devem ser discutidos à exaustão. A Câmara de Vereadores tem o dever de exigir que o projeto retorne com planilhas orçamentárias atualizadas e um plano de viabilidade técnica que não deixe margem para interpretações.
O desenvolvimento da cidade não pode ser travado, mas não pode ser feito no escuro. O Executivo agora tem o dever de casa: fornecer as respostas que faltam. Afinal, transparência não é um entrave ao progresso, é a garantia de que ele realmente beneficia a comunidade.
A discussão vai além de um prédio novo; trata-se de como a administração pública gere seus ativos mais valiosos. O rigor técnico deve ser redobrado para evitar que decisões de hoje se tornem os problemas de amanhã.
Morte de adolescente:
contradições que exigem respostas
A morte trágica da adolescente Maria Eduarda Vieira exige da Secretaria Municipal de Saúde respostas transparentes e sem blindagens institucionais. O luto de uma família não pode ser respondido com notas vagas e sem assinaturas de autoridades responsáveis.
A família relata que o atendimento inicial apontou uma crise de ansiedade. O laudo definitivo confirmou Influenza A e pneumonia. Sintomas respiratórios graves não podem ser confundidos com fatores psicológicos sem uma investigação minuciosa.
A administração afirma que a jovem ficou em observação. No entanto, ela foi dispensada com dores severas, retornando à UPA menos de quatro horas depois. O protocolo de alta médica precisa ser exposto passo a passo.
A nota oficial classifica como “tecnicamente inadequado” presumir erro inicial com base no desfecho clínico. Não se trata de presunção, mas sim do legítimo direito à dúvida diante de uma perda irreparável.
O atendimento público de saúde é financiado pelo cidadão e deve total clareza sobre seus atos. Isolar-se atrás de termos técnicos e comunicados impessoais amplia a dor dos familiares e destrói a confiança da comunidade no sistema de saúde.
A sindicância interna não pode ser um instrumento de protelação, mas sim um canal célere de auditoria clínica.
A transparência absoluta não é uma concessão da prefeitura, é um dever legal e humanitário.
Projeto de restauro da Capela do Verzeri está travado
É, no mínimo, inquietante observar o compasso de espera que trava o restauro da Capela do Verzeri e do Teatro Antônio Sepp. Santo Ângelo, que se orgulha de ser a Capital das Missões e ostenta sua história em cada esquina, parece sofrer de uma miopia cultural seletiva. Como explicou a produtora Odila Motta, os projetos estão estagnados por falta de captação — não conseguiram atingir sequer a cota mínima de 20% para avançar.
O diagnóstico é amargo: falta participação local. E o que torna o cenário mais surreal é o fato de que o incentivo fiscal permite abater 100% do imposto a pagar. Ou seja, o empresário não “tira do bolso”; ele apenas decide que uma parte do que já daria ao Estado fique aqui, investido em uma obra que valoriza a cidade, atrai turistas e preserva a memória.
Dados desconsiderados
Os dados da PNAD Contínua de 2025 não são apenas números; são o retrato de um país que insiste em caminhar com uma perna só. Quando o topo da pirâmide (apenas 10%) abocanha uma fatia da renda nacional maior do que 70% da população inteira, não estamos falando apenas de “desigualdade”, mas de uma barreira estrutural ao desenvolvimento.
A concentração de renda no Brasil é um gargalo que sufoca o consumo, limita a educação e atrofia o mercado interno. Enquanto uma minoria concentra 40,3% da massa de rendimentos, a base da pirâmide luta para fazer o “bolo” render, recebendo 13,8 vezes menos que o topo. É uma distância abissal que perpetua ciclos de pobreza e falta de oportunidade.
Negar que este é um dos problemas centrais do país é, no mínimo, miopia social. Não se trata de punir o sucesso, mas de entender que uma nação onde a riqueza circula em um funil tão estreito é uma nação que nunca alcançará seu pleno potencial. O crescimento que não se distribui não é progresso; é apenas acumulação.
Não dá para continuar fingindo que esse abismo não compromete o futuro.
Debate político chega ao fundo do poço
A política contemporânea vive um cenário de profunda anemia intelectual. O que assistimos hoje nos palcos eleitorais é a falência da retórica em favor da estética. Os candidatos tornaram-se reféns — e cúmplices — de seus marqueteiros, abandonando a capacidade de sustentar um debate de ideias real.
Falta o “apuro certeiro”. Em vez de dissecarem as afirmações dos adversários com visões objetivas, os postulantes ao poder limitam-se a frases de efeito e ataques coreografados.
Não se vê mais o desmoronar de falsas razões através do intelecto; vê-se apenas o ruído das redes sociais.Essa ineficiência na qualificação técnica e argumentativa gera um efeito colateral perverso: o descompromisso programático.
Como as palavras proferidas não nascem de convicções sólidas, mas de roteiros ensaiados, o político eleito chega ao poder sem amarras com o que disse. O resultado é um mandato órfão de ideias, onde o pragmatismo vazio substitui o projeto de nação. Enquanto a política for feita pelas mãos dos marqueteiros, o debate continuará a ser um teatro de sombras onde a verdade é a primeira a ser sacrificada.
Até contaminação de detergentes virou arma política, com alguns imbecis bebendo o produto para tentar provar que a medida da Anvisa foi política. Fundo do poço é pouco.
Mendonça entre escancarar e proteger
A determinação do ministro André Mendonça, relator do Caso Master, para que a Polícia Federal entregue a lista completa de autoridades com foro privilegiado citadas nas investigações, remove o verniz de “negócio privado” do escândalo do Banco Master. Ao exigir os nomes “sem exceção”, Mendonça sinaliza que o Supremo não aceitará uma blindagem seletiva, comum em acordos de delação que tentam “vender” apenas peixes pequenos.
O cenário é de apreensão total no Congresso e no próprio STF. Investigações da PF já apontam para um esquema de fraudes bilionárias que teria irrigado influências políticas através de “mesadas” e favorecimentos — como as suspeitas que levaram a buscas na residência do senador Ciro Nogueira.
Resta saber se a República suportará a “pólvora” que está prestes a cair ou se, mais uma vez, as engrenagens do poder buscarão um meio de abafar o estrondo.
Perguntar não ofende
Já se começa a respirar o clima das eleições. A questão é saber quantos vão sufocar antes de outubro?
Só para lembrar
É o ponto máximo da baixaria. No Rio de Janeiro, diante do corte de seus “penduricalhos” financeiros, deputados ameaçam revidar com a divulgação da lista de amantes dos magistrados responsáveis pela canetada. O episódio escancara o abismo de caráter, desprovido de argumentos intelectuais. O risco, porém, é o da destruição mútua assegurada. A pólvora não escolhe alvo.
Para refletir
“O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê…”
Platão

