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SANTO ÂNGELO
18 de julho de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

Os limões e a limonada

  • julho 18, 2026
  • 3 min read

Há alguns dias, um paciente entrou no consultório e, antes mesmo de sentar, soltou uma frase que escuto com frequência:”Doutor, acho que nasci estragado.”

Enquanto ele contava sua história, tudo parecia conspirar para que pensasse assim. Ansiedade desde muito jovem. Um pai explosivo. Uma mãe deprimida. Dificuldades financeiras. Perdas importantes. Uma infância em que amadurecer não foi uma escolha, mas uma necessidade.

Na neurologia, aprendemos cedo que ninguém nasce em uma folha em branco. Nosso cérebro é construído por milhares de pequenas influências. Carregamos uma genética que não escolhemos. Herdamos predisposições para ansiedade, impulsividade, depressão ou até uma facilidade extraordinária para aprender música, matemática ou acolher pessoas. Depois, a vida começa a escrever sobre esse cérebro. A família, os professores, os amigos, os traumas, os afetos, as decepções e os sucessos deixam marcas reais, capazes até de modificar o funcionamento das conexões entre os neurônios.

Tudo isso ajuda a explicar quem somos.Mas explicar nunca foi o mesmo que condenar.Costumo dizer aos meus pacientes que entender a própria história não serve para encontrar culpados. Serve para encontrar caminhos.

Foi então que lembrei da velha frase que todos conhecemos: “Quando a vida lhe der limões, faça uma limonada.”

Confesso que ela sempre me incomodou um pouco. Parece simples demais. Como se bastasse boa vontade para transformar sofrimento em felicidade.A verdade é que nem todos recebem os mesmos limões.

Só que existe algo fascinante no cérebro humano.Apesar de sermos profundamente influenciados pela genética e pelas experiências, existe uma região do nosso cérebro, especialmente na parte mais à frente, o córtex pré-frontal, que nos permite fazer algo extraordinário: observar a nós mesmos.

É justamente aí que nasce a limonada.Ela continua sendo feita dos mesmos limões.Não apaga a infância difícil. Não elimina uma predisposição genética. Não desfaz um trauma. Não faz desaparecer a ansiedade ou a tristeza como num passe de mágica.

Mas acrescenta outras coisas.Acrescenta conhecimento. Psicoterapia. Um tratamento quando necessário. Pessoas que chegam na hora certa. Amor. Tempo. Perdão. Coragem para recomeçar. Pequenas escolhas repetidas todos os dias. E, pouco a pouco, aquele amargo começa a ganhar um sabor diferente.

Perceba um detalhe bonito dessa metáfora.A limonada nunca deixa de ser feita de limões.Ela apenas deixa de ser apenas limão.Talvez seja isso que chamamos de amadurecimento.

No fim da consulta, aquele paciente sorriu discretamente e disse:”Então o problema não é o limão…O limão conta de onde viemos.A limonada conta quem decidimos nos tornar”.

Assenti afirmativamente. E a vida seguiu em frente.

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NORBERTO WEBER WERLE

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