O problema e o tamanho dele
Nesta semana, entrou no meu consultório um homem de pouco mais de cinquenta anos. Veio de uma cidade pequena aqui da região, dessas em que todo mundo se conhece, a praça ainda reúne gente no fim da tarde e uma ida ao mercado quase sempre termina em conversa.
Sentou na minha frente com o boné entre as mãos. Disse que não dormia bem. Que o trabalho tinha diminuído. Que as contas estavam apertadas. Que dentro de casa as coisas também já não eram como antes.
Falava baixo, como quem tinha vergonha do próprio sofrimento.Em determinado momento, baixou os olhos e disse:“Doutor, acho que eu não estou mais dando conta.”
Existem frases que mudam uma consulta.Perguntei um pouco mais. Vieram o silêncio, algumas lágrimas e, depois, aquilo que talvez ele estivesse tentando criar coragem para dizer havia semanas: em alguns momentos, tinha pensado que seria melhor não estar mais aqui.O problema não era pequeno.
Mas, naquele momento, ele parecia maior do que a própria vida.
É isso que o sofrimento faz com algumas pessoas. Ele altera a medida das coisas. Uma dívida parece definitiva. Uma separação parece o fim de tudo. Uma perda profissional parece impossível de superar. Quem observa de fora enxerga saídas. Quem está mergulhado na dor, muitas vezes, enxerga apenas uma parede.
Lembrei das nossas estradas aqui do interior do Rio Grande do Sul em madrugada de neblina. O motorista sabe que a estrada continua. Sabe que existe uma cidade depois da curva. Mas o farol ilumina apenas alguns metros e, por um instante, parece que o mundo termina ali.
Talvez seja disso que o Setembro Amarelo precise falar. Prevenir o suicídio não é dizer apenas que a vida é bonita. Para algumas pessoas, naquele momento, ela não está bonita.
É perceber quando alguém muda. Quando se isola. Quando começa a se despedir. Quando perde a esperança. É perguntar sem medo. É escutar sem julgar. É levar a sério quando alguém diz que não aguenta mais.
Ao final daquela consulta, os problemas daquele homem continuavam existindo. Eu não tinha como resolvê-los todos naquela tarde.Mas ele não saiu sozinho. Saiu acompanhado, com tratamento organizado e pessoas próximas sabendo que ele precisava ser cuidado.
Na medicina, aprendi que nem sempre conseguimos diminuir rapidamente o tamanho de um problema.
Mas, muitas vezes, conseguimos ajudar alguém a enxergar que existe uma estrada depois da neblina.
E talvez seja exatamente isso que salva uma vida: permanecer ao lado até que a pessoa consiga voltar a enxergar o caminho.

