O epitáfio
Os grandes velórios já não existem mais, e hoje, narcisicamente, eu morri.O amor morreu, acidentalmente; colisão fatal no coração.
As suntuosas lápides tumulares ficaram no passado, e os grandes monumentos funerários são recordados apenas no Dia de Finados.
Os jovens, se pesquisarem no Google ou no Spotify, encontrarão Epitáfio, música da banda Titãs – letrada era menos revolucionária –, e lá estará o verso “devia ter amado mais”.
Estava pensando no amor um pouco antes da hemorragia de afetos e da escuridão nos olhos.
No desenho animado, o gambazinho francês PepélePew, que amava a foragida gata selvagem, quando ainda não entendíamos muito bem as coisas do coração, em infância, portanto, lembrava-nos do l’mour – não lamort.
Essa confusão homófona é coisa do psicanalista barcelonês Emilio Mira y Lopes, em Os Quatro Gigantes da Alma, que resolveu situar o amor bem pertinho da morte.
Enfim: o que escrever na lápide?
O amor é o grande acontecimento dessa coisa que se chama processo civilizatório, ainda que tenhamos bombas caindo dos céus todos os dias.
O amor, que é gênero desconhecido nas suas profundezas científicas, mas conhecida espécie de bem-querer nas rimas tortas dos poetas, sem dúvida, deve habitar a pedra gélida.
E se a solidão reservar somente o ébrio coveiro para o derradeiro silêncio que separa os vivos da vida eterna? Escreverá ele o poema terminal na última estação? Ou recitará o emudecido cadáver os arrependimentos mundanos?
O nada poético também poderia esculpir o fúnebre mármore. Talvez o nada, envergonhado, à espera de uma nova vida para amar, depois do último círculo do inferno de Dante.
Escrevam na lápide cinza, em versos cinza, em letras grandes, curvilíneas, como o corpo dela, as epopeicas canalhices, algumas por causa de Sigmund; outras, simplesmente, pela infâmia do livre-arbítrio.
Escrevam, em lúgubre despedida, antes dos machadianos vermes deliciarem-se na pele empretecida, o tamanho do meu amor por ela, o meu jeito de amar, pois – resta crer –, não haverá perecimento do amor na eternidade.
Escrevam, então, para sempre:“Todo o meu amor a ti”.

