Não temos mais tempo
“Não temos mais tempo.” A frase atribuída à copiloto Nathalia, nos instantes finais de um acidente aéreo na Flórida, no último domingo, ecoa muito além daquela cabine. Quem é apaixonado por aviação, como eu, conhece bem um sentimento que une aqueles que compartilham o céu: “Quando perdemos um colega, perdemos um pouco de nós. Quando um sai de rota, todos sentem.” Mas aquelas palavras carregam uma reflexão ainda mais profunda, que ultrapassa os limites da aviação e alcança cada um de nós: a vida não avisa quando estamos vivendo o nosso último minuto.
Vivemos como se o tempo fosse uma reserva infinita. Primeiro o trabalho, as contas, os compromissos. Depois, quando tudo estiver em ordem, viveremos. Visitaremos nossos pais. Brincaremos com nossos filhos. Faremos aquela viagem. Diremos “eu te amo” sem pressa.
Mas há um engano nessa conta: nós não temos tempo. Nós somos o tempo. Cada minuto que passa não é algo que perdemos de uma agenda. É um pedaço de nós que não volta. Não existe vida guardada para mais tarde.
Quantas vezes recusamos um abraço por estar atrasados? Quantas ligações deixamos tocar, certos de que poderíamos retornar amanhã? Enquanto corremos atrás do futuro, nossos pais envelhecem, nossos filhos crescem e as pessoas que amamos aprendem a conviver com nossa ausência.
Um dia, a cadeira de alguém estará vazia. O telefone não será atendido. A voz que tantas vezes nos chamou pelo nome só poderá ser ouvida dentro da memória. E daremos tudo por cinco minutos: justamente aqueles que, quando existiam, pareciam não valer nada.
Não é preciso esperar uma tragédia para compreender. Ainda há tempo para sentar à mesa sem olhar o celular, escutar de novo a história do pai, aceitar o convite da criança, atravessar a cidade só para abraçar a mãe. Há tempo para pedir perdão, recomeçar, dizer o que sentimos. Mas não há garantia de que esse tempo seja amanhã.
No fim, ninguém deseja mais uma reunião, uma conta paga ou um título conquistado. Desejamos uma tarde comum, um cheiro de casa, um riso conhecido, mais uma chance de dizer: “Fica um pouco. Eu ainda não terminei de te amar.”
Se hoje sua mãe pergunta se você almoçou, seu pai repete uma história ou seu filho pede para brincar, não chame isso de rotina. Chame de privilégio.
Abrace-os hoje. Não apenas porque amanhã eles talvez não estejam aqui. Mas porque amanhã talvez seja você quem falte.
E que, quando a sua voz também virar saudade, ninguém precise chorar por um amor que você deixou para depois.

