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SANTO ÂNGELO
08 de agosto de 2026
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Opinião

Enquanto o tempo trabalha

  • agosto 8, 2026
  • 3 min read

Manhã fria na capital das missões. Um senhor entrou lentamente no consultório, apoiado no braço da filha. Antes de se sentar, olhou ao redor como quem procurava alguma coisa que não sabia mais nomear. A filha contou que ele havia sido um homem ativo, conhecido pela memória extraordinária e pela capacidade de resolver qualquer problema. Agora, esquecia compromissos, repetia perguntas e, algumas vezes, não reconhecia a própria casa.

Enquanto eu o examinava, pensei nos meus dez anos de profissão.

Quando comecei na neurologia, acreditava que meu trabalho seria combater doenças. Eu estudava imagens, reflexos, movimentos e medicamentos. Imaginava que o cérebro revelaria seus mistérios a quem o observasse com suficiente atenção. Com o passar dos anos, porém, compreendi que havia outro personagem dentro de cada consulta: o tempo.

Eu o vi trabalhando naquele homem.O tempo estava na lentidão de seus passos, na palavra que não conseguia encontrar e no esforço para lembrar o nome dos netos. Mas também estava na mão da filha, que permanecia sobre o ombro do pai com a mesma paciência com que, certamente, ele segurara sua mão na infância.

Ao final da consulta, expliquei o diagnóstico e as possibilidades de tratamento. A filha fez várias perguntas. O pai permaneceu calado. Quando os dois se levantaram para sair, ele segurou meu braço e perguntou:

– Doutor, eu vou esquecer tudo?

Não encontrei uma resposta capaz de caber apenas na medicina. Disse que faríamos o possível para preservar suas lembranças e sua autonomia. Ele me olhou por alguns segundos e respondeu:

– Então diga à minha filha que eu a amo, antes que eu esqueça de dizer.

A filha começou a chorar. E eu também precisei desviar o olhar.

Naquele momento, depois de dez anos observando o cérebro humano, entendi que o tempo não trabalha apenas retirando. Às vezes, ele também revela. Diante da possibilidade da perda, aquele homem descobriu o que ainda precisava ser dito.

Desde então, sempre que vejo alguém adiar um abraço, uma reconciliação ou uma demonstração de amor, lembro daquela consulta.

O tempo continuará trabalhando, com ou sem a nossa permissão. Ele modifica o corpo, apaga algumas lembranças e fecha portas que julgávamos permanecer abertas para sempre.

A lição é simples: não espere perder a memória para lembrar as pessoas do quanto elas são importantes. Há palavras que precisam ser ditas enquanto ainda existe tempo para serem ouvidas.

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NORBERTO WEBER WERLE

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