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SANTO ÂNGELO
23 de maio de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

Como vai você?

  • maio 23, 2026
  • 3 min read

Há uns 25 anos, quando eu tinha perto de sete anos, a televisão ainda tinha o poder de reunir a casa. A novela passava, a sala silenciava, e aquela música de Roberto Carlos embalava as cenas da Helena, vivida por Vera Fischer, em Laços de Família.

 “Como vai você, Que já modificou a minha vida, Razão de minha paz jáesquecida, Nem sei se gosto mais de mim ou de você”. Lembram?

Eu ouvia aquela ideia de amor e pensava, com a inocência dos sete anos: como é possível alguém gostar tanto de outra pessoa? Aquilo me parecia grandioso demais. Bonito demais. Quase impossível.

Talvez por isso aquela música tenha ficado em mim. Porque ela falava de uma forma de amar que não era sobre controle, aparência ou vaidade. Era sobre presença. Sobre querer saber. Sobre sentir falta. Sobre se importar com o simples fato de alguém ter tido um dia bom ou ruim.

Na última quarta-feira, meus avós Rudi e Lurdes completaram 65 anos de casados. Sessenta e cinco anos de história, de família, de dificuldades, de rotina, de renúncias e de escolhas repetidas. Fica aqui minha homenagem.

Hoje, infelizmente, os relacionamentos não têm tido a mesma sorte. Atendo todos os dias dezenas de falências familiares. Casais que já não se escutam. Filhos perdidos em casas onde falta direção. Pais exaustos, mães solitárias, famílias inteiras feridas por algo que, muitas vezes, começou pequeno: a perda do básico.

Perdemos prioridades. Fugimos do romantismo como se ele fosse ingenuidade. Substituímos contato por telas, conversa por respostas curtas, presença por convivência automática. E, em nome da busca por detalhes de perfeição, vamos perdendo o núcleo.

Relacionamento não morre apenas por grandes tragédias. Morre, muitas vezes, por ausências pequenas e repetidas. Morre quando ninguém mais pergunta. Quando ninguém mais repara. Quando ninguém mais senta perto. Quando vencer a discussão vira mais importante do que preservar a história.

Talvez um dos males do século seja justamente este: a fragilidade dos vínculos. Tudo parece substituível. Tudo parece descartável. Se incomoda, troca. Se exige esforço, abandona. Se não corresponde à fantasia, rompe.

Talvez precisemos reaprender com aquela antiga pergunta cantada por Roberto Carlos: “Como vai você?” Porque, no fundo, muito relacionamento acabaria menos se essa pergunta ainda fosse feita com interesse verdadeiro.

Por mais amores assim.Por mais gente que queira saber do dia do outro.Por mais gente que entenda que amar não é encontrar alguém perfeito.É não deixar morrer o essencial.

 

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NORBERTO WEBER WERLE

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