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SANTO ÂNGELO
30 de abril de 2026
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Opinião

Abril dourado

  • abril 25, 2026
  • 3 min read

Abril sempre me traz um cheiro antigo.

Não é apenas o mês. É quase uma porta que se abre. Basta o calendário virar, o outono ganhar corpo, o sol perder um pouco da força do verão, e alguma coisa desperta em mim com uma nitidez que o tempo não conseguiu apagar. Abril, para quem cresceu no interior e perto da lavoura, não é só uma data no ano. Abril tem som, tem pó, tem movimento, tem espera, tem cansaço bom. Abril tem cheiro de soja.

Eu, filho de agricultor, aprendi cedo que havia uma poesia silenciosa no final da safra. Não era a poesia dos livros. Era outra. Mais bruta, mais verdadeira, mais impregnada de terra, suor e farelo. Aquele ronco metálico, contínuo, quase hipnótico, que entrava pelos ouvidos e ficava dentro da gente como se dissesse: agora é tempo de colher aquilo que foi plantado.

Havia também a pesagem. A balança tinha para mim uma importância quase solene.  A balança não era só um instrumento. Era uma espécie de juízo final da lavoura. Ali se confirmavam a expectativa, a angústia, a torcida contra o clima, contra a seca, contra o excesso de chuva, contra tudo aquilo que o homem não controla, mas precisa enfrentar.

E havia as viagens na carroceria. Hoje, quando penso nisso, quase sinto o vento de novo no rosto. Era um vento que não vinha embalado por telas, ar-condicionado ou vidros fechados. Era vento de verdade. Vento que trazia poeira, cheiro de estrada, cheiro de grão, cheiro de máquina, cheiro de fim de tarde. Eu ia olhando o mundo passar com olhos de menino, sem saber que estava guardando tudo aquilo para a vida inteira.

Talvez uma das imagens mais vivas da minha infância seja a da montanha de soja. Aquilo, para um menino, não era estoque. Era aventura. Era quase um Everest de grãos dourados. Escalar aquela montanha tinha um sabor de conquista. Os pés afundavam, o corpo escorregava, e ainda assim havia alegria.

Hoje atendo crianças e adultos. Escuto famílias. Observo comportamentos. Vejo dores que não aparecem em exames simples. Vejo vínculos frouxos, olhares cansados, pais atrasados não apenas no relógio, mas na presença. Vejo filhos isolados, muitas vezes fechados em quartos, em fones, em telas, em mundos artificiais que simulam companhia, mas não substituem afeto. Vejo casas onde há conexão de internet em alta velocidade, mas baixa circulação de conversa, de toque, de convivência, de realidade.

E é impossível não fazer o contraste.

Estamos criando filhos que tocam muito em vidro e pouco no mundo. E, com isso, áreas profundas do cérebro humano, forjadas ao longo de mais de 200 mil anos para interação concreta com ambiente, grupo, natureza, risco, textura, cheiro, distância, espera e presença, vão ficando estranhamente adormecidas.

Talvez por isso haja tanta inquietação sem rumo. Abril, então, me comove por isso: o final da safra de soja me lembra um tempo em que a vida chamava o corpo inteiro para participar. Não se trata de idealizar o passado nem de condenar o presente como se toda modernidade fosse inimiga. Mas talvez o maior desafio de hoje seja exatamente este: colher nossos filhos de volta para a realidade antes que cresçam demais sem o cheiro da vida.

 

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NORBERTO WEBER WERLE

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