A viagem que ficou
Há viagens que impressionam pela distância. Outras, pelo preço, pela paisagem, pelo hotel, pelo avião ou pela quantidade de fotografias. Mas existem aquelas que, mesmo simples, continuam vivendo dentro de nós décadas depois.
Talvez você também tenha uma.
Pode ter sido uma ida à praia em família, uma visita aos avós, uma viagem de ônibus, uma pescaria, uma noite fora de casa. Não importa muito o lugar. O que importa é aquilo que aconteceu dentro de você enquanto estava ali.
Uma das viagens que mais me marcou aconteceu ainda na infância, em São Nicolau, ao lado do meu avô. Não havia hotel, conforto ou roteiro. Dormimos fora de casa, sob uma lona, no meio do mato. Pescávamos, fazíamos fogo sem carvão, convivíamos com o escuro, com os sons da noite e com o que a natureza oferecia.
Era pouco em termos materiais. Mas era imenso em experiência.
Ali eu aprendi coisas que nenhuma viagem sofisticada poderia me ensinar da mesma maneira. Aprendi a lidar com o medo, com o improviso, com a espera, com a simplicidade e com a confiança em quem estava ao meu lado. Cresci um pouco naquele acampamento. Talvez tenha amadurecido sem perceber.
Hoje, como neurologista e professor, compreendo ainda melhor o tamanho dessas experiências aparentemente pequenas. O cérebro não responde apenas ao luxo, à distância ou à complexidade. Ele se modifica diante da novidade, da emoção, do vínculo, do desafio e da sensação de pertencimento. Experiências simples podem gerar memórias profundas, estimular adaptação, autonomia, confiança e até ampliar a forma como percebemos o mundo.
Talvez por isso algumas lembranças da infância tenham tanta força. Não porque éramos apenas crianças, mas porque estávamos inteiros naquele momento.
Hoje viajamos mais longe. Cruzamos oceanos, conhecemos a Europa, os Estados Unidos, cidades que antes pareciam existir apenas nos livros. E tudo isso é extraordinário. Mas nem sempre o que é maior por fora é maior por dentro.
A memória tem outro critério.
Ela guarda o que nos toca, o que nos transforma, o que mistura novidade, afeto, descoberta e presença. Por isso uma noite sob uma lona pode permanecer mais viva do que uma semana em um destino famoso.
E isso não pertence apenas à infância. Ainda podemos viver experiências enormes em qualquer idade. Uma caminhada, uma conversa, um almoço em família, um lugar novo, um silêncio compartilhado. Quando há presença verdadeira, até o simples pode reorganizar o cérebro e a vida.
Talvez a melhor viagem da sua vida não tenha sido a mais distante.
Talvez tenha sido aquela em que você se sentiu vivo, amado, protegido ou livre.
Pense um pouco.Para onde sua memória viajaria agora, se pudesse escolher apenas um lugar?Talvez seja justamente ali que ainda exista uma parte muito importante de você.

