A morte política
A minha epiderme foi perfurada pelo projétil fabricado pela própria democracia. A morte política ocorreu na primavera que preludia o meu cinquentenário, sem flores coloridas no jazigo.
A configuração política do futuro Congresso Nacional sugere que o Brasil fez escolhas cujas consequências poderão atravessar as próximas décadas.
Insistir no debate de ideias rejeitadas pelas urnas talvez seja inútil. Mas confundir derrota eleitoral com certidão de óbito do pensamento crítico seria entregar a pá ao próprio coveiro.
Não há mais espaço para a solidariedade social. O individualismo venceu, e a vitória é celebrada como liberdade. Cada um por si, todos contra todos, e o mercado como divindade capaz de transformar desigualdade em mérito e abandono em oportunidade.
A classe trabalhadora está sendo substituída pelo exército infinito de empreendedores do próprio corpo. Motoristas, entregadores e prestadores de serviços são promovidos, por decreto semântico, à condição de empresários. Direitos trabalhistas? Um detalhe inconveniente para quem acaba de ganhar uma empresa sem patrimônio, sem férias, sem seguridade e sem futuro.
Enquanto isso, os algoritmos decidem o que consumimos, o que vemos, quanto circula a riqueza e até quais ideias políticas merecem chegar à nossa consciência. A liberdade de escolha é construída em plataformas privadas. Pensamos por conta própria, desde que o algoritmo concorde.
O poder já não se distribui apenas nos parlamentos, nas urnas ou nos tribunais. Concentra-se também nas mãos dos donos das Big Techs, que controlam infraestruturas, dados e fluxos de informação sem compromisso com os interesses nacionais.
Governos discutem soberania enquanto alugam a própria capacidade de decidir. O Brasil, dependente de tecnologias, plataformas e sistemas que não controla, assiste ao desmoronamento da soberania digital antes mesmo de compreender o tamanho da perda.
Talvez a morte política seja isso: não o fim das eleições, mas a redução da democracia a um ritual periódico, enquanto o poder real se desloca para estruturas privadas, invisíveis e praticamente inalcançáveis.
O féretro segue ao horizonte político.
Tudo é escuridão e silêncio.

