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SANTO ÂNGELO
18 de abril de 2026
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Opinião

A fila da vida

  • abril 18, 2026
  • 3 min read

Fila é chata. Não tem poesia nisso quando a gente chega e vê aquele rastro de gente dobrando esquina, relógio correndo mais rápido do que o próprio passo. Fila é, à primeira vista, um pequeno teste de paciência que ninguém pediu para fazer. Eu mesmo já cheguei a pensar que fila era tempo perdido ou um intervalo morto entre o querer e o conseguir.

Mas, com o tempo, comecei a desconfiar dessa ideia.

A fila é quase uma metáfora escancarada da vida. A gente entra sem saber exatamente quanto vai demorar, sem garantia de conforto, muitas vezes sem ter certeza se vale a pena ficar até o final. Tem dias em que ela anda rápido, quase nos surpreende. Em outros, parece que empaca de propósito, como se testasse até onde vai nossa tolerância. E, curiosamente, não dá para furar. Ou melhor, até dá, mas todo mundo sabe que tem um preço.

Na vida também é assim. Existe um tempo entre o plantar e o colher que não aceita atalhos elegantes.

Só que a fila, quando a gente para de brigar com ela, começa a revelar outras coisas. Já percebi que é um dos poucos lugares onde as pessoas ainda se olham sem pressa. Já puxei conversa despretensiosa que virou história interessante. Já vi gente oferecer lugar, dividir guarda-chuva, emprestar caneta, segurar mochila. Pequenos gestos que não cabem na pressa do dia a dia.

Uma vez, numa fila do aeroporto mesmo, acabei aprendendo mais sobre a vida de um desconhecido do que em muitas reuniões formais. Em outra, saí com uma indicação de livro que mudou minha forma de pensar. Já vi nascer amizade em fila de banco, parceria em fila de evento, até carona combinada ali, entre um passo e outro.

A fila também ensina silêncio. Ensina a observar. A reparar nos detalhes que normalmente passam batido. O jeito de alguém sorrir, a ansiedade disfarçada, a impaciência estampada. Ensina que cada pessoa ali carrega sua própria urgência, seu próprio motivo para estar esperando.

E talvez seja essa a principal lição: todo mundo está em alguma fila. Algumas visíveis, como a do mercado. Outras invisíveis, como a da realização pessoal, da cura, do reconhecimento, do descanso. E em todas elas existe esse espaço intermediário, que a gente insiste em chamar de atraso, mas que, na verdade, é vida acontecendo.

Hoje, quando me vejo numa fila, ainda acho chato. Não vou romantizar demais. Mas já não vejo como tempo perdido. Vejo como tempo disponível. Uma pausa forçada que, se eu quiser, pode virar encontro, aprendizado, ou simplesmente um momento meu.

No fim das contas, a fila não é só sobre esperar. É sobre o que a gente escolhe fazer enquanto espera.

Tudo começa com um “Oi. Como você se chama?” E a sequência é com vocês.

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NORBERTO WEBER WERLE

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