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SANTO ÂNGELO
20 de junho de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

A Copa e a o ser humano

  • junho 20, 2026
  • 3 min read

A Copa do Mundo sempre me pareceu um desses raros fenômenos capazes de acender áreas muito antigas do cérebro humano. Não é apenas futebol. É memória, pertencimento, emoção, recompensa, saudade. É uma espécie de sinapse coletiva, em que milhões de pessoas, ao mesmo tempo, sentem medo, esperança, alegria e frustração como se fossem um só corpo.

Cada um tem sua Copa guardada em algum canto da alma.

Ano 1994.Emoção quase sagrada daquele tetra que atravessou casas, ruas, rádios, televisões e famílias inteiras. Não era só o Brasil campeão. Era o abraço do pai, o grito do vizinho, a lágrima de quem nem sabia explicar direito por que chorava. A bola entrou na história, mas o que ficou mesmo foi a sensação de estarmos juntos.

Depois vieram outras Copas. Outras casas. Outros rostos. Amigos que cresceram, familiares que partiram, crianças que nasceram e passaram a vestir a camisa amarela sem conhecer ainda o peso bonito daquela tradição. A Copa vai marcando o tempo sem pedir licença. Ela nos mostra quem éramos, onde estávamos, com quem torcíamos e quem hoje nos faz falta no sofá.

Lembro também dos despertares da madrugada na Copa de 2002. O frio do cobertor, a casa silenciosa, o corpo ainda pedindo sono, mas o coração já acordado antes do apito inicial. Há algo profundamente humano nisso: levantar no escuro para torcer. Como se aquela partida distante, do outro lado do mundo, tivesse o poder de aquecer a madrugada mais gelada.

E há também a dor. O 7 a 1 não foi apenas uma derrota. Foi uma lição sobre fragilidade. Sobre como até os gigantes caem quando se desorganizam por dentro. Naquele dia, talvez o Brasil tenha aprendido, do modo mais duro, que ninguém se sustenta sozinho. Nem uma seleção. Nem uma família. Nem uma sociedade. Dentro de campo são 11. Na vida, também precisamos ser coletivos.

Como neurologista, eu vejo na Copa uma aula sobre o cérebro e sobre a existência. A memória não guarda apenas fatos. Ela guarda cheiro, voz, colo, abraço, ausência. Guarda a sala cheia, o churrasco, a bandeira na janela, o amigo chegando, a mãe chamando para comer, o avô comentando o jogo como se estivesse no banco de reservas.

A neurociência ensina que lembranças fortes nascem quando emoção e presença se encontram. Talvez por isso uma Copa vista em família fique mais viva do que tantos dias comuns. Porque havia gente ao redor. Havia barulho. Havia expectativa. Havia mãos se apertando antes do pênalti, silêncio antes da cobrança e explosão depois do gol. O cérebro grava melhor aquilo que o coração não vive sozinho.

E talvez seja essa a grande beleza da Copa: ela nos devolve, por alguns instantes, ao essencial. Antes dos cargos, das pressas, das diferenças e das distâncias, somos pessoas procurando outras pessoas para dividir o medo e a esperança.

A beleza maior não está apenas no gol, mas no abraço depois dele.

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NORBERTO WEBER WERLE

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