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SANTO ÂNGELO
14 de maro de 2026
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Opinião

Um novo olhar

  • março 14, 2026
  • 2 min read

O caminho para a escola teve uma perspectiva diferente. Enquanto eu levava minhas filhas, perguntei para a Valentina, a mais velha, como ela estava se sentindo com os óculos novos.

A resposta veio com a honestidade de quem acabara de descobrir um mundo em alta definição. Ela agora enxergava tudo, inclusive pequenas espinhas no rosto que antes passavam despercebidas.

Mas foi o arremate que me inquietou:

“Como seria bom se as pessoas tivessem problemas de visão… assim, não cuidariam tanto as imperfeições umas das outras.”

A frase provocou algumas reflexões durante o trajeto para o trabalho.

Como adolescente, ela vive o epicentro da pressão estética e dos padrões sociais que nos bombardeiam, com e sem filtros, muitos filtros, aliás.

Em um mundo onde a leve inflamação cutânea é amplificada pelo julgamento alheio, a clareza visual trouxe matizes de sensibilidade e maturidade.

Sem perceber, ela iluminou algo coletivo, pois temos a tendência de olhar o outro com lentes de aumento para os defeitos, quando o enxergar bem deveria ser um instrumento de empatia, com menos julgamento e mais humanidade.

Talvez o comentário de Valentina não seja apenas uma observação ingênua sobre óculos novos, mas uma pequena crítica involuntária ao modo como aprendemos a observar o mundo.

Aprendemos cedo a identificar falhas: uma espinha, uma roupa fora do padrão, um corpo ou um pensamento diferente. O olhar, que poderia ser um gesto de encontro, muitas vezes se transforma em discriminação das mais diversas espécies.

As redes sociais ampliaram esse fenômeno. A vida cotidiana passou a ser observada como vitrine permanente, onde todos, sob a tutela algorítmica, parecem disputar uma espécie de campeonato silencioso de perfeição.

Talvez um oftalmologista social devesse receitar algo simples: menos foco nas imperfeições microscópicas do outro e um campo de visão mais amplo para o que realmente importa, pois o problema do nosso tempo não é exatamente enxergar pouco, mas é enxergar demais, sem as lentes da compreensão.

 

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Andrey Régis de Melo

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