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SANTO ÂNGELO
03 de abril de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

O vazio da vida

  • abril 3, 2026
  • 2 min read

Quem nunca sentiu um vazio dentro de si?

Aquela sensação estranha que parece obscurecer os sentidos possíveis das coisas simples.

Pensamos às vezes que estamos diante de um grande abismo, e sentimos medo.

Apenas a turva incerteza do outro lado. Uma travessia perigosa sem uma velha ponte para dar um pequeno passo.

O presente não passa de uma infinita folha em branco, rabiscada de nada; nada nas entrelinhas.

Nenhuma linha. Nenhuma vírgula, nenhum ponto e vírgula; nem pensar em colocar dois pontos para o porvir; no máximo, uma interrogação retumbante antes do ponto final.

Uma floresta escura e silenciosa, sem o cricrilar dos grilos, sem as estrelas, sem ecos na escuridão descolorida.

O vazio dentro de nós, em nós, perfeitamente atado; emaranhado de fios soltos, a loucura do nada em timbres cardíacos acelerados e ansiosos.

Quantas vezes enxergamos a silhueta desse enorme vazio no espelho? A disforme imagem devoradora.

Por todos os lados, um imenso oceano de águas inquietas, em lágrimas revoltas, barquinho de papel à deriva, sem cais, sem porto, apenas à deriva.

Talvez o vazio também seja um lugar.Não um fim. Talvez o momento das reflexões mais importantes. A pausa para o recomeço. O momento da respiração profunda, como se os alvéolos distribuíssem esperança nas distâncias corporais.

É verdade que o vazio assusta. Porque ele é feito de estranhas quietudes que gritam. Mas é no silêncio que escutamos a voz emudecida. Também é verdade que nem sempre estamos prontos para nos ouvir.

Talvez o vazio não seja um abismo.

Talvez seja uma folha em branco esperando a primeira linha de um novo livro a ser escrito na subjetividade singular de cada vida, às vezes uma poesia enamorada com devaneios apaixonados.

O vazio pode ser o outono repleto de folhas secas bailando em prelúdio à primavera que ressurgirá vigorosa com sabores e olores de pitanga madura.

O que seria da vida sem o frio do vazio?

Onde poderíamos colocar o calorzinho que o sol nos oferta em cada amanhecer?

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Andrey Régis de Melo

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