O sequestrador da República
O brasileiro médio teme a criminalidade comum. O assalto na esquina, o furto do celular, o roubo no semáforo. A violência visível, imediata, que produz medo cotidiano.
Todavia, crimes muito mais devastadores ocorrem em silêncio, utilizando-se de arquitetura sofisticada, em ambientes requintados, longe do bandido construído pelo imaginário social.
São os crimes do colarinho branco,
Quando um banco quebra por fraude, não se trata apenas de um delito financeiro abstrato. Trata-se de um terremoto econômico capaz de destruir poupanças, afetar milhões de investidores e comprometer recursos de um país.
No escândalo do Banco Master, investigações apontam para fraudes bilionárias atribuídas ao banqueiro Daniel Vorcaro. O rombo investigado envolve operações com carteiras de crédito consideradas fictícias.
O caso ganhou contornos ainda mais inquietantes quando surgiram notícias sobre relações pouco transparentes entre o banqueiro e figuras influentes da República.
As reportagens revelaram reuniões, trocas de mensagens e interlocuções com autoridades públicas, levantando dúvidas inevitáveis sobre a permeabilidade das instituições ao poder econômico.
As investigações também mencionam a existência de intimidação e espionagem praticadas por uma milícia privada liderada por um sujeito alcunhado de “Sicário”.
Aqui reside algo perturbador: a milícia não ocupa morros nem disputa territórios periféricos. Ela opera em escritórios climatizados, movimenta bilhões e influencia centros de poder.
E, como tantas vezes ocorre no Brasil, a resposta institucional parece vacilante. Apesar da gravidade dos crimes, que justificariam a prisão preventiva para garantia da ordem econômica, o banqueiro e seus comparsas, inicialmente, foram postos em liberdade, sendo a prisão efetivada apenas quando um jornalista apareceu como a próxima vítima.
O país se mobiliza com razão diante do crime de rua, mas permanece indiferente ao criminoso sofisticado que captura instituições, manipula o sistema financeiro e transforma a República em refém.
O roubador leva uma carteira; o sequestrador da República, o Estado.
O Brasil precisa passar a limpo as engrenagens que permitem esse tipo de poder subterrâneo. O povo brasileiro não pode sobreviver numa espécie de cárcere privado coletivo, onde os donos do poder econômico controlam as chaves da República.

