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SANTO ÂNGELO
28 de fevereiro de 2026
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Opinião

Lágrimas e suor

  • fevereiro 28, 2026
  • 3 min read

Há dias em que o consultório silencia antes de mim.
O exame repousa aberto, mas quem fala primeiro é o olhar do paciente. E, por vezes, dele escorre uma lágrima.

Sou neurologista. Sei que a lágrima nasce da glândula lacrimal, composta por água, sal e proteínas. Conheço a fisiologia.Mas, como escritor, aprendi que a lágrima é mais do que biologia.

Ela é água com história.O suor também é.
Água e sal, liberados para manter um equilíbrio. Enquanto a lágrima protege o olho, o suor protege o corpo. Ambos são respostas à tensão: uma emocional, outra física.Ambos nos mantêm vivos.

Na clínica e na vida, percebo que a lágrima é o primeiro movimento de reorganização interna. O cérebro, diante da dor, processa, adapta-se. A neuroplasticidade começa muitas vezes no instante em que os olhos marejam.

Chorar é recalibrar.A lágrima não é fraqueza; é reconhecimento. É o sistema nervoso dizendo: “isso importa”. E quando importa, pode ser transformado.

O suor é a continuação da história.Se a lágrima reconhece, o suor age. Ele surge na disciplina diária, no estudo, na reabilitação, na construção de um novo projeto. É o sal do compromisso.Ambos têm sal.Talvez por isso nos lembrem que viver não é doce o tempo inteiro.

Vejo isso nos pacientes diante de diagnósticos difíceis. Primeiro vem a lágrima: o impacto, o luto. Depois, nasce o suor: a fisioterapia persistente, a adesão ao tratamento, o esforço de reaprender.

A lágrima ressignifica.O suor constrói.

Na minha própria caminhada, quando um plano falha ou a frustração aperta, a lágrima cumpre seu papel: limpa o olhar, ajusta o foco. Depois, quase sempre, surge um novo projeto.E então vem o suor.

Há uma alquimia nisso: a água que sai do olho fertiliza a terra interior; o suor que sai da pele cultiva o mundo exterior. Um dá sentido. O outro dá forma.

Quando lágrima e suor se encontram, nasce crescimento. E crescimento aponta para felicidade serena, paz consciente e amor maduro.Não a felicidade que ignora a dor,mas a que a integra.Não a paz da ausência de conflito,mas a da harmonia conquistada.Não o amor idealizado,mas o amor que persevera.Que nunca nos envergonhemos das lágrimas. Elas nos ensinam.
Que nunca fujamos do suor. Ele nos transforma.

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NORBERTO WEBER WERLE

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