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SANTO ÂNGELO
23 de janeiro de 2026
Rádio AO VIVO
Estado

Investigações indicam possível execução de agricultor após confronto com PMs em Pelotas

  • janeiro 23, 2026
  • 4 min read
Investigações indicam possível execução de agricultor após confronto com PMs em Pelotas

Depoimentos, áudios e laudos periciais reunidos até o momento apontam a possibilidade de que o agricultor Marcos Daniel Nornberg, de 48 anos, tenha sido executado por policiais militares após um confronto ocorrido no dia 15, na zona rural de Pelotas, no sul do Estado. A principal hipótese é de que ele tenha sido atingido por um disparo quando já estava caído.

Testemunhos, vídeos e registros de áudio entregues pela família às autoridades mostram a chegada dos policiais ao sítio, a abordagem, gritos e a troca de tiros entre os brigadianos e o produtor rural, que teria acreditado estar sendo alvo de assaltantes. As imagens são de baixa qualidade, pois o episódio ocorreu por volta das 3h da manhã, em ambiente escuro.

A viúva de Nornberg, Raquel Motta, prestou depoimento à Corregedoria da Brigada Militar e à Polícia Civil. Ela relatou que estava deitada a cerca de 20 centímetros do marido ferido quando policiais se aproximaram e efetuaram um disparo final. Segundo Raquel, um dos PMs teria dito algo como “mexeu a cabeça” antes do tiro.

Esse comentário foi captado pelo áudio do circuito interno de câmeras, embora apenas uma perícia técnica possa confirmar exatamente o que foi dito. As câmeras estavam posicionadas na área externa da residência. O áudio registra um disparo isolado cerca de 15 segundos após o fim da troca inicial de tiros, o que reforça a versão de um possível “tiro de misericórdia”.

Uma linha alternativa de investigação considera que os policiais possam ter atirado acreditando que o agricultor ainda tinha condições de reagir, o que poderia caracterizar legítima defesa, desde que não haja excesso. Nos vídeos, é possível ouvir os policiais gritando “perdeu, perdeu”.

Está confirmado que, ao chegar à propriedade, os policiais se identificaram diversas vezes como polícia. Ainda assim, Nornberg efetuou pelo menos dois disparos com uma carabina calibre .22, arma registrada e de uso permitido. Em resposta, foram ouvidos ao menos 16 tiros, supostamente disparados pelos PMs com fuzis e pistolas. O último disparo ocorreu cerca de 15 segundos após o cessar do tiroteio, o que pode configurar homicídio doloso, caso fique comprovada a execução.

Familiares afirmam que o agricultor adquiriu a arma após a propriedade ter sido assaltada há cerca de 10 anos, quando criminosos chegaram a fazer o pai dele refém, se passando por policiais.

O laudo de necropsia, cujo resumo foi obtido pela imprensa, aponta que Nornberg morreu em decorrência de múltiplos disparos de arma de fogo. Foram identificados ferimentos tangenciais na face, pescoço e região clavicular, além de lesões penetrantes em áreas vitais. Os tiros fatais atingiram o ombro e a região axilar direita, transfixando pulmão, coração, diafragma e estômago, provocando hemorragia interna maciça.

A perícia também concluiu que os disparos foram feitos a curta distância, evidenciados por tatuagens de pólvora no rosto e no pescoço da vítima. As trajetórias dos projéteis indicam movimento de cima para baixo, o que sugere que o agricultor estava caído no momento do tiro fatal.

Até o momento, a Brigada Militar e a Polícia Civil não se manifestaram oficialmente sobre o andamento das investigações.

Possíveis falhas na abordagem

A Corregedoria da Brigada Militar também apura a conduta inicial dos policiais. Segundo os PMs, a entrada na propriedade ocorreu após receberem a informação de que o local seria usado como esconderijo de drogas, armas e veículos roubados. A denúncia teria partido de dois criminosos presos no Paraná após roubos em outra área rural.

Entre as falhas investigadas estão o tratamento de uma informação não confirmada como dado oficial, a ausência de levantamento prévio sobre o proprietário do imóvel, a falta de observação do local antes da ação, a decisão de agir durante a madrugada e a não comunicação à Polícia Civil. Também há suspeitas de que alguns policiais estivessem sem uniforme, o que pode ter levado Nornberg a acreditar que se tratava de assaltantes.

Os policiais afirmam ter reagido em legítima defesa, mas a investigação busca apurar se houve excesso na ação.

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Carolina Gomes

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