Câmera corporal registra abordagem que terminou com morte de mulher em ação da PM em São Paulo

Imagens de câmera corporal da Polícia Militar de São Paulo registraram a sequência da abordagem que terminou com a morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, na última sexta-feira (3), na Cidade Tiradentes, em São Paulo.
A mulher foi baleada no peito por uma policial militar após uma discussão e aguardou cerca de 30 minutos por socorro. Ela chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu.
As imagens, obtidas pela TV Globo, mostram que a ocorrência começou às 2h58, quando o retrovisor de uma viatura atingiu o marido da vítima, Luciano Gonçalves dos Santos, que caminhava ao lado dela. Após o contato, houve discussão entre o casal e os policiais.
Durante a abordagem, a soldado Yasmin Cursino Ferreira desceu da viatura e, segundos depois, um disparo é ouvido. A câmera não registra o momento exato do tiro, mas mostra o colega, Weden Silva Soares, questionando se ela havia atirado. A policial afirmou que reagiu após ter sido agredida.
As imagens também evidenciam a demora no atendimento. O socorro só chegou por volta das 3h30, mais de meia hora após o disparo. Nesse período, o estado de saúde da vítima se agravou.
Os dois policiais foram afastados preventivamente enquanto o caso é investigado pelo Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) e pela Corregedoria da corporação. A arma utilizada foi apreendida.
O caso foi registrado inicialmente como resistência seguida de morte no 49º Distrito Policial. A Secretaria da Segurança Pública ainda não detalhou a tipificação final da ocorrência.
Após a morte, moradores da região realizaram protestos pedindo justiça. Thawanna deixa uma filha de cinco anos.
Cronologia do caso pela body cam de PM
Veja abaixo os principais pontos da sequência a partir do ponto de vista da câmera corporal do soldado:
2h58 – Viatura da PM com o soldado Weden Silva Soares, que dirige o veículo e usa câmera corporal, e Yasmin Cursino Ferreira, no banco do passageiro, entra na Rua Edmundo Aldran, na Cidade Tiradentes. O retrovisor do carro atinge o braço de Luciano Gonçalves dos Santos, que caminhava ao lado de Thawanna. Weden para, dá ré e xinga: “A rua é lugar pra você tá andando, caralho?”. Em seguida, há uma discussão. “Com todo respeito, vocês que bateram em nós”, diz a mulher. Yasmin desce da viatura. Durante a discussão, Thawanna afirma: “Você não aponta o dedo em mim, não”.
2h59 – Weden também desce e vai para a parte de trás da viatura discutir com Luciano. Seis segundos depois, é possível ouvir o disparo na parte da frente do veículo. Ao se aproximar, o policial pergunta: “Atirou? Cê atirou nela?”. Yasmin responde: “Ela deu um tapa na minha cara”. Luciano retruca: “Bateu, não!”. Weden manda o homem se afastar e pega o celular para pedir uma ambulância.
3h – Outra viatura da PM chega. Weden informa: “A menina tá baleada. Fox atirou”. Fox é uma gíria usada por policiais para se referir a uma agente feminina.
3h03 – Sem a chegada do resgate, Weden inicia os primeiros socorros: “Peraí, já tá vindo o resgate, tá?”.
3h05 – Thawanna reclama: “Ai, tá doendo”. Weden responde: “Não faz força. Fica de boa. Já vai, já vai chegar o resgate”. Em seguida, ao ser questionado por Yasmin sobre o atendimento, ele diz: “Tá vindo já”.
3h07 – Outros policiais chegam e perguntam o que aconteceu. Weden relata: “A gente tava passando aqui e o retrovisor acabou pegando no cara lá, e eles vieram pra cima da viatura. Aí a Fox desembarcou. Quando desembarcou foi pra cima dela, deu um tapa na cara dela, e tava continuando indo pra cima dela, e ela atirou nela.”
3h11 – Yasmin fala algo inaudível, e o colega responde: “Relaxa, agora já foi já”.
3h16 – Weden cobra a chegada do resgate ao perceber piora no estado da vítima: “Tá ficando branco já… cadê o resgate? Copom, reitera o resgate para Edimundo Audran”.
3h24 – Weden volta a explicar pela sexta vez a ocorrência para outros policiais: “Eu tava tentando afastar o cara, ela desceu, a mulher já foi pra o lado dela, começou o embate lá, ela deu o tapa nela… Aí quando eu vi, eu ouvi o disparo… achei até que tinha atirado no chão, mas se ela tava indo pra cima dela… tá certa.”
3h26 – “Seria interessante achar uma câmera que mostra ela te dando tapa na cara”, diz Weden a Yasmin.
3h27 – Em nova fala, o soldado diz à colega: “Não era pra ter atirado não, mas… ter atirado porque ela vim pra cima de você, te bater, pegar sua arma. Porque se ela vai pra cima de você, começa a te bater, o cara ia me segurar.”
3h30 – A ambulância do Corpo de Bombeiros chega ao local. Thawanna estava havia mais de 30 minutos aguardando socorro.
3h35 – A vítima é colocada na maca dentro da ambulância. As imagens não mostram, mas depois ela foi levada a um hospital, onde não resistiu e morreu.
3h37 – Um policial que se apresenta como PPJ chega e recolhe a arma de Yasmin. PPJ é a sigla que a PM usa para se referir a um policial militar de plantão que atua para a Justiça Militar. “A sua arma, pode deixar na minha viatura”, diz o agente. “Porque quando o delegado perguntar, o PPJ, o oficial PPJ já recolheu… já apreendeu, tá?”
3h43 – Os dois policiais envolvidos na ocorrência que terminou na morte da mulher deixam o local em outra viatura da PM.

