As paredes do meu consultório
Companheiras de jornada. Valorável e sentimental estima guardo em meu cérebro pueril por aqueles ângulos de 90 graus, que se juntam a cada canto da sala, reverberando louváveis histórias. A cada abrir e fechar de portas, lá estão elas. Sorriem-me. Acolhem-me matinalmente com um bom-dia silencioso e educado e brilham a cada estalar do interruptor. Nunca queixaram de serem acordadas eventualmente à madrugada, em intercorrências salutares.
Confesso, caros leitores, que foram as amigas mais fiéis ao longo de todos estes anos. Ouviram tantas histórias, sem jamais fofocar a outrem. Vibraram com comunicados de cura de árduas batalhas pela vida de fulanos. Também comemoraram as gravidezes das ciclanas e junto choraram o fim da vida de inúmeros beltranos. Mas nunca e, aqui reitero, desabaram. Aliás: a cada ano, o alvará sanitário renovado atesta suas plenas condições de funcionamento. Nunca me exigiram nada, contudo dado tamanho apreço, costumo presenteá-las próximo ao Natal com a tinta tradicional e pequenos reparos que o tempo, por indelével que o é, costuma reivindicar.
Se olhos tivessem e mãos talentosas desenhassem, teríamos água salgada brotando de faces em inúmeros retratos que preencheriam arquivos de grande extensão. Lágrimas, refiro-me. Difícil não presenciar momentos como estes a cada dia. De felicidade ou tristeza. Quantas vezes, mesmo tesa a dois metros, foi consoladora com seu mutismo, que se traduziu e ecoou como um “vai ficar tudo bem” a tantas almas desejosas por cura. Preces ouviram. Contaram somente a mim.
Dias atrás, precisei furá-las para suspender alguns certificados extras e quadros de decoração. Egoísmo meu, fatigando-as ainda mais, dado o peso de escutarem tamanhas queixas diuturnamente. Nem ao menos, consultei-as. Admito: doeu-me. Parecia que sangue iria brotar, com gazes precisaria secar e curativos fazer. Felizmente, continuou-se o apreço bilateral e a dor por elas sentida ao entrar da broca da furadeira foi-me omitida. Quanta resistência. Que orgulho tenho delas.
Conhecem-me tanto quanto o relógio aos ponteiros. Convivemos ininterruptamente por horas assim como eles. Muitas vezes também já assistiram meu pranto e foram capazes de ampararem-se com suas mudas e sábias palavras. Vidas salvaram e assistiram-me estudar complexos casos. Isolaram o vento do corredor que resfriaria meu café, inertes. Sempre proativas.
Verde-claras o são. Simbolizam a esperança. Taciturnamente, conseguem mostrar que existe algo além da receita, da orientação e da cirurgia que pode ajudar-nos na restauração da saúde. Elas isolam o mal. Concentram o bem. Preservam os segredos e compartilham as orações. Obrigado por todas as contribuições, que mesmo estáticas foram essenciais. Valorizo-as: mudas e imóveis, falaram e apontaram-me por todos estes anos o caminho a seguir. Gratidão.
Um forte abraço, Norberto
É tempo de Quaresma. Que iniciem as reflexões em clima intensivo.

