Aprendizados de consultório
Nunca neguei meu inquietante interesse pelo estudo das mentes infantis. Sou ávido pela análise comportamental dos infantes, que com grande frequência se sentam nas cadeiras do meu consultório. Alguns nasceram em minhas mãos e hoje adentram as escolas. Outros já acriançados me conheceram, e hoje já sabem a tabuada do 7 ou os primeiros elementos da tabela periódica.
Alheio a tal, percebo com grande perspicácia o poder ambiental no desenvolvimento dos pequenos. Ainda: é tão gratificante e de inenarrável emoção poder participar em protagonismo de seus desenvolvimentos cultural, social e cognitivo. Descobri, somente após o afinco na neuropediatria, o motivo que alimentava as louváveis e doutas professoras na árdua luta da aprendizagem infanto-juvenil, apesar das baixas remunerações do sistema governista pouco meritocrata. Fica aqui novamente minha homenagem à classe docente.
Continuando: estava eu, despedindo-me em tom vespertino e melancólicona última consulta noturna do ano, que coincidentemente era pediátrica, quando fui surpreendido por uma pergunta de uma linda menina de alvos cabelos, olhos azuis e recentes 5 anos completos: “Qual a sua cor preferida?”.
Titubeei de pronto, e respondi – “vermelho”. A menina vestia um vestido carmim, sapatilha cor de sangue e 2 adesivos violáceos colados no braço. Ao alto, o cabelo apresilhado com múltiplos “tic-tacs” cor de pitanga. Sua aparência exigia aquela resposta de mim.
Todos que me conhecem sabem que não uso vermelho. Não combina com minha pele excessivamente clara e facilmente ruborizada. Ainda, gremista sou. Como se não bastasse, o vermelho sempre pode esconder manchas de sangue da profissão. Evito sempre que posso.
“Mentira”- disse ela. “Por que você fez isso? Foi pra me agradar?”
Engoli seco. Desculpei-me. E um “azul” saiu de meus lábios, em baixo tom.
Agora sim, havia falado a verdade.
Ela ainda bradou: “Eu sabia. Mamãe sempre diz para falar a verdade”. A mãe, desajeitada pela situação, pediu desculpas pela menina, repreendendo-a.
Quem mereceu a repreensão fui eu.
Uma menina de apenas 5 anos me ensinou novamente o básico. Ser verdadeiro, sem a necessidade de agradar a todos a todo momento ou ter pensamentos alinhados e unânimes em constância. Isto justifica o porquê de em muitas situações, enquanto adultos, vermo-nos perdidos em nós mesmos, buscando a todo custo encontrar-nos, numa procura eterna longe de nossas essências.
Crianças usualmente são espontâneas. Geralmente são verdadeiras. Puras. Autênticas. Sinceras. Naturais. Simples. Básicas.
E a vida é assim.
Quem dera os adultos aprendessem mais com as crianças. Quanto antidepressivos economizariam.
A secretária ainda se despediu de mim: “A menina antes de consultarme perguntou porque o senhor montou o pinheiro com bolinhas douradas e não vermelhas. Respondi que estavam em falta”.
Essas crianças são demais.

