A pressa que nos atrasou
Eu tenho sentido uma coisa estranha nos últimos tempos: a sensação constante de estar atrasado.Acordo já com a impressão de que deveria estar mais longe, mais produtivo, mais adiantado na vida. E conversando com pacientes, alunos e amigos, percebo que todos estamos com pressa.Pressa de crescer.Pressa de ganhar.Pressa de vencer.
Mas existe um paradoxo curioso nisso tudo. Nós estamos vivendo mais do que nunca. A expectativa de vida no Brasil já gira em torno de 75 a 80 anos, dependendo da região. Temos mais anos pela frente do que nossos avós tiveram. E, mesmo assim, nunca nos sentimos tão atrasados.Como pode?
Cientificamente parte dessa angústia vem da comparação. Comparar é um mecanismo natural. Desde crianças, aprendemos olhando o outro. Comparar pode ser saudável quando serve como inspiração. Quando eu vejo alguém disciplinado e penso: “Se ele consegue, talvez me sirva de exemplo.” Isso é comparação construtiva. Ela nos empurra para cima.
Mas existe a comparação tóxica que nos diminui.Aquela que transforma o sucesso do outro em prova do nosso fracasso.Aquela que faz a gente esquecer que cada pessoa tem um tempo, uma história, um ponto de partida diferente. E é aqui que entra a competitividade.
Competitividade sadia é querer ser melhor do que eu fui ontem. É disputar comigo mesmo. É melhorar meu trabalho, meu caráter, minha disciplina. É crescer sem precisar que o outro diminua.Competitividade nociva é viver como se a vida fosse um ranking permanente. É transformar amizade em disputa silenciosa. É medir valor humano por desempenho. É achar que só existe espaço para poucos no topo, como se felicidade fosse um pódio.
Nós estamos vivendo uma era em que tudo parece competição: carreira, corpo, viagens, filhos, casamento, produtividade. As redes sociais viraram vitrines permanentes. E, sem perceber, começamos a competir até em silêncio.
Como neurologista, eu vejo diariamente a avalanche de transtornos mentais crescendo: ansiedade, depressão, burnout, insônia, crises de pânico. Não é coincidência. O cérebro humano não foi projetado para viver sob comparação constante e sensação permanente de insuficiência.E junto com isso, estamos perdendo algo precioso: a capacidade de construir relações profundas.
Amizades estão mais superficiais.Relacionamentos conjugais estão mais frágeis.Temos mais conexões, mas menos vínculo.Talvez porque vínculo exige tempo. E nós estamos com pressa.Pressa de chegar antes mesmo de saber onde queremos chegar.
Tenho aprendido que a vida não é uma corrida de 100 metros e, sim, uma travessia longa. Se temos 80 anos pela frente, talvez não seja prudente gastar os primeiros 40 correndo desesperadamente.
Existe um tempo para plantar.Existe um tempo para amadurecer.Existe um tempo para colher.
Porque no fim, a única corrida que vale a pena é aquela em que a gente cruza a linha de chegada com saúde, vínculos preservados e paz no coração.
E isso, definitivamente, não combina com pressa.

