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SANTO ÂNGELO
14 de março de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

A estratégia da vida

  • março 14, 2026
  • 3 min read

Outro dia, no consultório, atendi um paciente que me fez pensar muito depois que a porta se fechou. Chamarei de seu Augusto.

Seu Augusto sempre foi um homem correto. Trabalhador. Pontual. Daqueles que nunca enganaram ninguém, nunca deveram, nunca fizeram mal a ninguém. Quando jovem, acordava cedo, trabalhava duro, voltava para casa cansado e repetia o mesmo ritual no dia seguinte. Uma vida inteira assim. Responsável.

Mas havia algo silencioso em sua história que agora, na velhice, cobrava um preço alto: faltou estratégia.

Responsabilidade, descobri ao longo da vida, não é a mesma coisa que preparação. Seu Augusto nunca pensou muito no futuro. Não porque fosse inconsequente. Longe disso. Ele simplesmente acreditava que, fazendo o certo todos os dias, o resto se organizaria sozinho.

A vida real não funciona assim. Agora ele está idoso. O corpo cansou antes da mente. Surgiu uma doença que exige uma cirurgia, não daquelas emergências dramáticas de minutos, mas daquelas urgências silenciosas que não podem esperar muito. Ele está aguardando. Mas o que me marcou não foi a doença.

Foi o vazio ao redor dela.

Sem alguém por perto para ajudar nos cuidados básicos. Sem uma rede organizada. Sem quem acompanhe consultas, medicações, exames. Filhos longe. Familiares distantes. Uma vida inteira vivida com dignidade… mas sem planejamento para a fragilidade inevitável da velhice.

Quando ele saiu do consultório, fiquei olhando a cadeira vazia. Pensei em como o mundo real é duro. Não é cruel por maldade. Ele simplesmente não se dobra à ingenuidade humana. O mundo exige preparo, ordem, estratégia. Não basta ser bom. Não basta trabalhar. Não basta cumprir deveres.

A vida cobra organização. E cobra caro.

Enquanto escrevo isso, penso em quantos de nós vivemos correndo atrás de pequenas urgências diárias, contas, compromissos, prazos,  mas raramente paramos para construir estrutura para o futuro.

Planejar a vida não é frieza. É cuidado. É amor por quem ainda seremos.

Seu Augusto não reclamou. Em nenhum momento. Falou da doença com uma serenidade que só quem viveu muito possui.Mas quando ele levantou para sair, percebi algo nos seus olhos.Uma espécie de silêncio.

Talvez a consciência tardia de que, no tabuleiro da vida, trabalhou duro… mas nunca montou estratégia. E a vida, essa professora exigente, não perdoa a ausência de planejamento.

Saí do consultório naquele dia um pouco mais pensativo. Porque, no fundo, sei que todos nós caminhamos lentamente para esse mesmo território chamado velhice.E lá, mais do que força, mais do que coragem, mais do que mérito…o que realmente nos protege é a estratégia que tivemos a coragem de construir enquanto ainda éramos fortes.

Não falo necessariamente de filhos, ou amigos ou dinheiro. Falo de uma rede, que se conecta e que se chama: SUPORTE.

Um abraço, Dr. Norberto.

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NORBERTO WEBER WERLE

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