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SANTO ÂNGELO
09 de janeiro de 2026
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Opinião

A árvore da infância

  • dezembro 13, 2025
  • 3 min read

De vez em quando, eu me pego pensando em algo tão simples que quase passa batido no meio do barulho do mundo: qual era a árvore da tua infância? Sim, aquela. A que cresceu contigo. A que te viu pequeno antes mesmo de tu saberes que existia gente que crescia.

Porque sempre tem uma. Uma árvore que nos acompanha sem nunca ter sido apresentada oficialmente. Eu, por exemplo, lembro da minha desde muito cedo, cedo mesmo. Lembrança de bebê, daquelas que a gente nem sabe se são memória ou alma. O pé de tangerina e o pé de laranja-lima lá de casa. Eles estavam lá antes de mim e, de um jeito estranho, parecia que tinham me esperado nascer.

Muitas vezes penso que cada um de nós tem um “Meu Pé de Laranja Lima” particular, como no livro do José Mauro de Vasconcelos.Uma árvore que foi mais do que árvore. Foi companhia, segredo, testemunha e consolo. A minha segurava meu balanço de corrente, com a cadeira trançada de cordas azuis desbotadas do sol, que ia e vinha com a força do vento e do meu empurrão.
Quando o galho embalava, parecia dizer: vai, guri, o mundo é teu.

Eu sabia cada forquilha onde encaixar o pé para subir rápido, antes que a mãe percebesse. Cada galho tinha um nome, uma função. Um virou cabo do meu bodoque. Outro me ensinou a amarrar cordas de balanço. E havia ainda as grimpas, lá no alto, onde eu me encolhia nas travessuras. Era o esconderijo seguro.

E tu? Qual era a tua árvore? Tinha cheiro?  Tinha sombra? Tinha cicatrizes nos galhos ou nas tuas canelas?

É curioso como uma simples planta pode ensinar tanto sobre a vida. A gente aprende equilíbrio antes de aprender filosofia. Aprende coragem antes de saber o nome dela. Aprende a aceitar quedas (e arranhões) muito antes de qualquer livro de autoajuda. Aprende que o tempo passa observando a fruta crescer, amadurecer e cair, simples assim, sem drama, sem aviso, sem nada além da própria natureza.

Se uma árvore já ensina tudo isso… imagina o resto. Imagina quanto do adulto que tu és começou ali: no quintal, na sombra, no cheiro da terra molhada, no gosto da fruta chupada ainda verde.

Talvez seja hora de visitar essa árvore outra vez. Nem que seja só pela memória. Nem que seja só pelo carinho. Nem que seja só para lembrar que, antes de todas as responsabilidades e corridas da vida, tudo o que a gente precisava para ser feliz era um galho firme e a coragem de subir.

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NORBERTO WEBER WERLE

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