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SANTO ÂNGELO
10 de outubro de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

O homem e o tempo

  • outubro 10, 2026
  • 3 min read

Passei boa parte da vida imaginando que o tempo era uma coisa que eu possuía.

“Depois eu faço.”
“Um dia eu vou.”
“Quando as coisas se acalmarem.”
“Na semana que vem.”

Talvez poucas ilusões humanas sejam tão confortáveis quanto essa: a de acreditar que temos tempo.

Falamos dele como quem fala de um patrimônio. Meu tempo. Teu tempo. Nosso tempo. Como se houvesse, escondido em algum lugar, um cofre cheio de manhãs ainda não vividas, abraços que poderão ser dados depois, viagens adiadas, conversas interrompidas e pessoas que continuarão exatamente onde as deixamos.

Mas o tempo não fica.E nós também não.

O homem e o tempo parecem dois seres diferentes caminhando lado a lado. Um envelhece enquanto o outro passa. Um tenta segurá-lo enquanto o outro escapa. Mas talvez sejam, no fundo, a mesma coisa.

Porque o tempo não passa diante de nós. Ele passa em nós.

Está na primeira ruga que não estava ali ontem. Nos cabelos que começam a mudar de cor. Na voz dos nossos pais ficando mais baixa. Na criança que já não cabe no colo. Na cadeira que um dia tinha alguém sentado e depois ficou vazia.

O relógio não conta apenas horas. Conta pedaços de nós.

Há algo profundamente romântico nisso. Saber que tudo é passageiro torna um abraço infinitamente mais precioso. Um almoço de domingo deixa de ser apenas um almoço. Uma conversa sem importância pode ser, sem que saibamos, a última daquela forma. Uma pessoa que hoje nos irrita pode amanhã ser exatamente aquela cuja voz daríamos tudo para ouvir mais uma vez.

Talvez amar seja perceber a finitude antes que a ausência precise nos ensiná-la.

Somos estranhamente econômicos com aquilo que não volta e extravagantes com aquilo que pode ser comprado outra vez. Guardamos o vinho, adiamos a viagem, postergamos a visita, economizamos palavras bonitas.

Como se a vida estivesse esperando.Não está.

A vida acontece enquanto organizamos a agenda para vivê-la.

E existe uma crueldade silenciosa nisso: ninguém recebe um aviso dizendo quando algo está acontecendo pela última vez. Não há música de despedida. Não aparece nenhuma legenda dizendo: aproveite, esta será a última tarde com essa pessoa, a última vez que essa criança correrá pela casa, a última conversa com teu pai, o último beijo antes de tudo mudar.Simplesmente acontece.Depois vira memória.

Talvez seja essa a verdade mais dura sobre o homem e o tempo: passamos a juventude acreditando que somos donos dele e envelhecemos descobrindo que sempre fomos feitos dele.

No final, não perdemos o tempo.O tempo é que, lentamente, leva tudo.

Inclusive nós.

 

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NORBERTO WEBER WERLE

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