
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, afirmou durante um evento em Minas Gerais que as chamadas canetas emagrecedoras serão oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Apesar do anúncio, o medicamento ainda não tem data definida para chegar à rede pública e depende de etapas que vão determinar a incorporação, o custo e quais pacientes poderão receber o tratamento.
Em publicação nas redes sociais, Lula afirmou que a medida pretende ampliar o acesso ao tratamento da obesidade, com protocolos médicos e acompanhamento adequado.
Atualmente, o SUS não oferece medicamento específico para o tratamento da obesidade. A cirurgia bariátrica é a principal alternativa disponível na rede pública, mas o acesso enfrenta filas.
Segundo especialistas ouvidos pelo g1, a necessidade de ampliar as opções de tratamento está relacionada ao cenário da obesidade no país. Mais de 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% tem obesidade, condição associada ao risco de outras doenças.
O que ainda precisa acontecer
O anúncio presidencial não significa que as canetas estarão disponíveis imediatamente nos postos de saúde ou na Farmácia Popular. Antes disso, pelo menos três etapas precisam ser concluídas:
- avaliação e recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), seguida de uma decisão formal do Ministério da Saúde;
- criação de um protocolo clínico que estabeleça quem poderá receber o tratamento e em quais condições;
- definição do impacto financeiro da medida e da fonte dos recursos.
A Conitec é responsável por analisar a eficácia, a segurança e os custos de novas tecnologias antes de recomendar ou não sua incorporação ao sistema público.
A comissão se reuniu em 4 de setembro, quando havia expectativa de que a semaglutida pudesse ser discutida. A análise, porém, foi adiada. A próxima reunião está prevista para 7 de outubro.
Mesmo uma eventual recomendação favorável da Conitec não significaria que o medicamento estaria imediatamente disponível. O Ministério da Saúde ainda precisaria definir as regras de utilização e organizar a oferta na rede pública.
Semaglutida é uma das possibilidades
O anúncio de Lula não especificou qual medicamento será oferecido pelo SUS. Entre as opções em discussão está a semaglutida, princípio ativo utilizado em medicamentos como Ozempic e Wegovy.
Em 2026, houve aumento no número de versões de semaglutida aprovadas pela Anvisa. O Ministério da Saúde havia solicitado agilidade na análise de pedidos de registro apresentados por empresas nacionais e estrangeiras.
Com a entrada de novos fabricantes no mercado, o preço das doses iniciais caiu. Segundo o levantamento citado pelo g1, há opções vendidas por cerca de R$ 300, enquanto o Wegovy chegou a custar quase R$ 1 mil.
Também existe uma parceria anunciada anteriormente entre o Ministério da Saúde e a farmacêutica EMS para a produção de canetas no país. Até o momento, porém, o projeto não avançou para a produção destinada ao SUS.
Projeto-piloto já está em andamento
O principal movimento concreto dentro da rede pública atualmente é um projeto-piloto com semaglutida em Porto Alegre.
A iniciativa começou em 26 de junho e acompanha cerca de 250 pacientes com obesidade grave que estavam na fila para cirurgia bariátrica. O estudo deve durar dois anos e busca avaliar como o tratamento pode ser aplicado dentro da estrutura do SUS.
A existência do projeto, porém, não representa uma ampliação geral do acesso ao medicamento na rede pública.
Quanto a medida pode custar
Outro ponto ainda sem definição é o impacto financeiro da incorporação.
Em uma análise anterior, a Conitec considerou uma dose inicial de R$ 727,25 e estimou um impacto acumulado de aproximadamente R$ 7 bilhões em cinco anos.
Em outro cenário apresentado no relatório, considerando doses iniciais a partir de R$ 400 e cerca de 150 mil pacientes no primeiro ano, o impacto seria de R$ 703 milhões em 2026. Mantido o ritmo de crescimento utilizado na análise, o valor acumulado em cinco anos poderia chegar a R$ 3,6 bilhões.
Os valores podem variar conforme o medicamento escolhido, o preço negociado, o número de pacientes atendidos e os critérios definidos para o tratamento.
Especialistas também destacam que a análise de custo precisa considerar as complicações associadas à obesidade. Entre os exemplos citados estão gastos do SUS com tratamentos e internações decorrentes de AVC, diálise, infarto e insuficiência cardíaca.
Quem teria direito ao tratamento?
Além do custo, será necessário estabelecer um protocolo clínico para definir quais pacientes poderão receber gratuitamente o medicamento.
Apesar de serem conhecidas popularmente como “canetas emagrecedoras”, essas medicações são utilizadas no tratamento de condições como diabetes tipo 2 e obesidade, que são doenças crônicas e exigem acompanhamento médico.
Hoje, o SUS ainda não possui um protocolo específico que estabeleça critérios para o uso dessas medicações no tratamento da obesidade.
O projeto-piloto com 250 pacientes também serve para avaliar a aplicação do tratamento na rede pública e pode contribuir para a elaboração de futuras diretrizes.
Especialistas defendem política pública
Para Neuton Dorenelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), a incorporação dos medicamentos é necessária, mas deve ser estruturada como uma política de Estado, com garantia de continuidade e distribuição para pacientes de diferentes regiões.
Ele defende uma linha de cuidado que envolva médicos, nutricionistas, educadores físicos e outros profissionais, além de estrutura adequada para o acompanhamento dos pacientes.
A pesquisadora Maria Laura Precinotto, doutoranda em Saúde Pública pela USP, também considera os medicamentos uma ferramenta importante no tratamento da obesidade, mas afirma que a incorporação precisa ser acompanhada por uma política pública mais ampla.
A avaliação, segundo ela, deve incluir equipes multidisciplinares, centros especializados e um plano nacional de tratamento da obesidade, sem restringir a política pública apenas à distribuição dos medicamentos.
O Ministério da Saúde informou, após o anúncio de Lula, que as canetas serão implementadas “de forma responsável”. A pasta, porém, não informou quando o acesso estará disponível, qual será o impacto orçamentário ou quais critérios serão adotados para definir os pacientes beneficiados.
O tema das canetas para tratamento da obesidade também não aparece no programa de governo de Lula registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Fonte: g1

