Pobre do homem, substantivo aposto
Alguns que falam e escrevem apresentam de quando em vez alguma dúvida na concordância do adjetivo quando usam a expressão pobre do homem e afins com a presença da preposição de entre os dois termos das expressões. Centra-se a dúvida no número do adjetivo – só singular ou também plural – e no gênero – só masculino ou também feminino. Os termos colocados antes e depois da preposição de podem ter essas variações, essas mudanças? Os gramáticos dizem que podem. Um desses gramáticos é Napoleão Mendes de Almeida em Gramática Metódica da Língua Portuguesa. Gramática essa recomendável a todos os que querem bem pensar, falar e escrever em nível culto português.
Napoleão diz à página 459 da gramática acima o seguinte: a interposição da preposição de nas expressões pobre do homem, desgraçado de ti e outras afins não impede a concordância normal do adjetivo – singular ou plural, masculino ou feminino – que vem antes da preposição nem do substantivo que vem depois. E mostra, entre os exemplos, estes: pobre do homem e pobres dos homens, desgraçado de ti e desgraçada de ti, desgraçado do homem e desgraçada da mulher, desgraçados dos homens e desgraçadas das mulheres, coitado do que vai para a guerra e coitados dos que vão para a guerra, coitada da que vai para a guerra e coitadas das que vão para a guerra. Note-se isto: a preposição de nas expressões desses tipos pode variar de gênero e número: de – do, dos, da, das.
Posto isso, mais isto: concordância do substantivo aposto. Substantivo aposto é aquele que vem depois de um substantivo posto antes. Sempre que possível, o substantivo aposto concorda em gênero e número com o substantivo anterior, chamado substantivo fundamental, básico. O substantivo aposto vem depois de uma vírgula e pode ficar numa frase entre vírgulas, na qual funciona como um aposto. Exemplo: O ódio, filho do orgulho. Antes de outros exemplos, explicação. Ódio no exemplo funciona como substantivo fundamental, básico, e filho como substantivo aposto, colocado depois de ódio, concorda com ódio em gênero [masculino] e número [singular].
Assim, em acréscimo de mais explicação, esta frase: O ódio, filho do orgulho, pesa demais em quem o mantém. Explicação: filho do orgulho funciona na frase como um aposto. Aposto na frase – um jeito dele, mais geral em uso – é ficar entre vírgulas. E mais três exemplos: A esperança, filha da fé, nunca morre. Alguns deputados federais e senadores, homens corruptos vestidos de ternos de grife, têm cara de pau até em dizer que vão provar a inocência. Homens é substantivo aposto e concorda em gênero e número com deputados e senadores – substantivos fundamentais. Eles – hipócritas, sepulcros caiados – excelências?

