A empatia que estamos esquecendo
Outro dia, numa fila qualquer, vi uma senhora demorar alguns segundos a mais para guardar as compras. Atrás dela, alguém suspirou, outro olhou impaciente para o relógio e um terceiro reclamou baixinho. Ninguém sabia que suas mãos tremiam porque havia perdido o marido poucas semanas antes. Eu também não sabia. Mas pensei em quantas vezes julgamos uma história inteira por alguns segundos.
Tenho a sensação de que estamos desaprendendo a imaginar a vida do outro. Queremos que o trânsito ande rápido, que o atendente não erre, que a criança não chore, que o idoso compreenda tudo depressa, que o colega esteja sempre disposto e que todos se comportem exatamente como esperamos. Quando isso não acontece, a irritação vem antes da pergunta.
Talvez o motorista distraído esteja levando a mãe para um exame difícil. Talvez a atendente sem sorriso tenha passado a noite cuidando do filho doente. Talvez aquele colega mais quieto esteja atravessando uma dor que decidiu não contar a ninguém. Há batalhas que não fazem barulho.
Empatia não é concordar com tudo, aceitar desrespeito ou viver sem limites. É apenas reconhecer que ninguém cabe inteiramente naquele instante em que o encontramos. Às vezes, ser empático é não buzinar. É esperar alguns segundos. É perguntar se está tudo bem. É ouvir sem interromper. É não transformar imediatamente o erro do outro em uma condenação.
Vivemos um tempo em que nunca tivemos tantas formas de comunicação, mas talvez nunca tenhamos tido tanta dificuldade de compreender. Nas redes sociais, opiniões viraram sentenças. Um erro define uma pessoa. Uma frase vira julgamento definitivo. Aos poucos, vamos ficando especialistas em apontar e cada vez menos capazes de acolher.
E isso também adoece quem julga. Viver irritado com o trânsito, com a família, com o vizinho, com o colega e com o mundo inteiro exige uma energia enorme. A empatia não beneficia apenas quem a recebe. Ela também devolve paz a quem a pratica. Compreender costuma ser muito mais leve do que carregar raiva.
Tenho tentado me lembrar disso diariamente. Nem sempre consigo. Mas, quando alguém me contraria, demora ou falha, tento pensar: eu não sei o que essa pessoa viveu antes de chegar até aqui.
Um dia seremos nós os lentos da fila, os distraídos do trânsito, os cansados, os que perderam alguém, os que erraram.
E talvez, nesse dia, não precisemos encontrar alguém perfeito.
Bastará encontrar alguém humano.

