As coisas simples que mudaram tudo
Quando penso na infância, não são os grandes acontecimentos que primeiro me vêm à memória. Lembro das coisas simples. Daquelas pequenas conquistas que, naquele tempo, pareciam enormes e que hoje percebo terem ajudado a formar quem sou.
Lembro da felicidade de aprender a empinar uma pipa. No início, ela caía, rodopiava, arrastava pelo chão e, muitas vezes, enroscava onde não devia. Era preciso correr, insistir, soltar a linha no momento certo e tentar compreender o vento. Quando finalmente ela subia, eu sentia uma alegria difícil de explicar. Não era apenas uma pipa no céu. Era a sensação de ter conseguido algo sozinho.Talvez tenha sido uma das primeiras vezes em que entendi que algumas coisas só alcançam altura depois de muitas tentativas.
Também me recordo de aprender a assar um churrasco. Eu observava os mais velhos com atenção, como se soubessem um segredo que eu ainda precisava descobrir. Aprendi que não bastava acender o fogo. Era necessário cuidar da brasa, respeitar o tempo e não ter pressa. Mais tarde compreendi que, ao redor de uma churrasqueira, nunca se prepara apenas carne. Preparam-se encontros, conversas, risadas e lembranças que permanecem muito depois de o fogo se apagar.
Atar o nó do lenço do CTG também foi um desses aprendizados. Repeti muitas vezes até acertar. Hoje percebo que aquele gesto carregava mais do que tradição. Era uma maneira de reconhecer de onde eu vinha, de sentir que fazia parte de uma história iniciada muito antes de mim. Certos costumes parecem pequenos, mas sustentam nossas raízes.
E havia o fogo do fogão a lenha. Escolher os gravetos, ajeitar a lenha, soprar devagar e esperar a chama aparecer. Algumas vezes, a fumaça vinha antes do fogo. Outras vezes, era preciso começar tudo novamente. Sem perceber, eu aprendia que nem toda chama nasce forte. Algumas precisam de cuidado, paciência e persistência até conseguirem aquecer uma casa inteira.
A infância foi me ensinando assim, sem discursos e sem explicações complicadas. A pipa me ensinou a conviver com o vento. O churrasco, a respeitar o tempo. O lenço, a valorizar minhas origens. O fogão a lenha, a não desistir diante da primeira fumaça.
Depois crescemos e passamos a considerar importantes apenas os aprendizados dos livros, da profissão e das responsabilidades. Mas, quanto mais o tempo passa, mais percebo que muito do que realmente importa aprendi quando ainda era menino.
Talvez por isso a saudade da infância seja tão profunda. Não sentimos falta apenas do lugar ou das pessoas. Sentimos falta da simplicidade com que a felicidade nos encontrava.
No fim, foram aquelas pequenas lições que mudaram tudo. E talvez a vida adulta seja apenas o longo caminho de volta até elas.

