A metáfora do frio
O frio tem uma forma curiosa de nos revelar. Ele chega pela fresta da janela, pela ponta dos dedos, pelo silêncio mais demorado das manhãs. E, de repente, parece que tudo fica mais difícil. Levantar, trabalhar, sorrir, agradecer.
Mas talvez o frio de fora apenas desperte um frio mais antigo: aquele que mora dentro de nós quando passamos a vida reclamando do que falta.
O ser humano tem essa estranha vocação para sonhar o sonho do que não tem. No verão, deseja o inverno. No inverno, reclama do frio. Quando está só, quer companhia. Quando tem companhia, pede silêncio. Quando trabalha demais, sonha com descanso. Quando descansa, sente culpa por não produzir.
Vivemos como se a vida estivesse sempre nos devendo alguma coisa.
E essa sensação permanente de escassez adoece. A frustração repetida não fica apenas na alma, ela deixa marcas no cérebro. Um cérebro que vive esperando o que não veio, comparando o que tem com o que falta, cobrando da vida uma perfeição impossível,começa a se tornar cansado, irritado, ansioso, triste. Aos poucos, a pessoa deixa de viver o presente e passa a habitar um lugar mental chamado “quando”.
Quando eu tiver mais dinheiro. Quando eu tiver mais tempo. Quando alguém me reconhecer. Quando a fase passar. Quando o frio acabar.
Lembro de um paciente que me disse, em consulta, com os olhos marejados, que havia conquistado quase tudo aquilo que um dia pediu. Tinha família, trabalho, casa, saúde suficiente para seguir. Mas confessou que não conseguia sentir alegria. Sempre havia um detalhe faltando. Sempre uma cobrança nova. Sempre uma comparação silenciosa com alguém que parecia estar melhor.
Naquele momento, percebi que a maior pobreza dele não era financeira, nem social, nem profissional. Era a incapacidade de repousar emocionalmente sobre aquilo que já existia.
Talvez o frio nos ensine exatamente isso. Ninguém vence o inverno reclamando da temperatura. A gente vence o inverno buscando abrigo, acendendo o fogo possível, vestindo o casaco que tem, aproximando-se de quem aquece. A vida também é assim.
Não teremos todos os dias o sol que desejamos. Nem todas as respostas. Nem todos os reconhecimentos. Nem todos os afetos na medida exata da nossa carência. Mas podemos aprender a não transformar cada ausência em sentença.A maturidade talvez seja isso: parar de exigir que a vida seja quente o tempo inteiro e aprender a produzir calor por dentro.
Porque, no fim, há pessoas com cobertores caros e almas geladas. E há outras, com pouco nas mãos, que ainda conseguem aquecer o mundo.
O frio passa. Mas aquilo que fazemos com ele permanece.

