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SANTO ÂNGELO
11 de julho de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

Entre o pragmatismo e a ilusão nas urnas

  • julho 11, 2026
  • 5 min read

O início oficial da corrida eleitoral bate à porta e, embora o calendário ainda reserve espaço para o teatro protocolar das convenções partidárias, o tabuleiro político real já está praticamente desenhado.

Com a confirmação dos primeiros nomes que disputarão o voto do cidadão, a reação nas ruas oscila entre a curiosidade e o ceticismo. A pergunta que ecoa de forma automática na mente do eleitor não poderia ser outra: afinal, essas candidaturas são para valer ou servem apenas para cumprir tabela?

Ao analisar o perfil dos postulantes, fica claro que a fauna política deste ano repete velhos padrões. No topo da pirâmide, encontramos os candidatos com trajetória sólida, currículo robusto e chances reais de vitória. São aqueles que entram no jogo com estrutura, base eleitoral e discurso afiado. Logo abaixo, figuram os chamados “soldados do partido”: concorrentes conscientes de suas limitações nas urnas, mas que aceitam o sacrifício para somar votos na legenda, fortalecer a bancada ou alavancar a candidatura majoritária do partido ao Executivo.

 

A ressaca pode ser amarga

O grande problema, contudo, reside no terceiro grupo: o dos iludidos da política. Movidos por promessas vazias de caciques partidários ou pelo eco enganoso das próprias bolhas nas redes sociais, muitos cidadãos de boa-fé decidem “meter a cara” em cenários absolutamente desfavoráveis. Sem recursos, ou apoio real, essas candidaturas nascem destinadas ao isolamento. E, na maioria das vezes, são instigadas por quem busca uma vantagem pessoal, sem compromisso. Se eleito, ganha o apoiador. Se perder, perde sozinho o candidato.

Para esses, o pós-eleição costuma reservar uma ressaca amarga, onde a desilusão com o sistema e o prejuízo financeiro cobram uma conta pesada.

A disputa pelo voto é a engrenagem mais complexa da democracia. Em um ecossistema tão profissionalizado e desigual, confundir entusiasmo pessoal com viabilidade eleitoral é o primeiro passo para virar estatística — ou mera escada para o sucesso alheio.

 

Reposição salarial dos servidores municipais é engolida pelo aumento do IPE Saúde

O fantasma da matemática financeira bateu à porta do funcionalismo municipal e o resultado final da equação é amargo: a conta que simplesmente não fecha e isso foi avisado nesta coluna.

A tão debatida reposição salarial de 4,26% perdeu o fôlego antes mesmo de provocar algum alívio. Ao colocarem a ponta do lápis no papel, os servidores constataram o óbvio que ficou de fora dos discursos oficiais: o reajuste de 4,39% no IPE Saúde vai engolir o ganho nominal do funcionalismo.

Na prática, a reestruturação do plano de saúde pesa muito mais no bolso do trabalhador do que o alento concedido pela reposição. E isso ficou de fora do debate sobre a reposição e a falta de retroatividade, que faz com que o peso seja ainda maior.

 

Quando o “não lembro” esconde o arrependimento

O diagnóstico impresso pelo Datafolha é devastador para a nossa representatividade política: 67% dos eleitores afirmam não se lembrar de seus votos para deputado federal e senador no pleito de 2022.

À primeira vista, o dado é tratado como um sintoma clássico de amnésia eleitoral generalizada. Afinal, a enxurrada de nomes e santinhos no dia da votação costuma sumir da mente do cidadão assim que a urna emite o sinal sonoro de confirmação. No entanto, reduzir esse comportamento ao esquecimento puro e simples é ignorar uma camada psicológica muito mais profunda e desconfortável do eleitorado brasileiro: o silêncio da vergonha.

Dizer “não lembro” funciona como o álibi perfeito. É a saída de emergência social para quem prefere não admitir em quem depositou sua confiança — e suas expectativas — há poucos anos.

 

O álibi do esquecimento

Diante da polarização extrema, do fisiologismo escancarado no Congresso e da velocidade com que promessas de campanha se desmancham na primeira votação de interesse do governo, o voto secreto ganha uma nova utilidade após a eleição. Ele vira um esconderijo.

A verdade é que admitir o voto em determinados parlamentares, hoje, exige uma coragem que muitos não têm, seja para evitar o julgamento alheio em debates familiares ou pela percepção tardia de que se foi enganado. O eleitor não esqueceu; ele simplesmente opta por não querer encarar a decepção ou reconhecer o erro.

Ao fingir que não se lembra do passado recente, o cidadão abre mão de cobrar o parlamentar no presente e, pior, pavimenta o caminho para cometer exatamente os mesmos erros no futuro.

 

PERGUNTAR NÃO OFENDE

Prefeitura confirma realização de concurso público. E agora, quem estava mentindo, aquele que anunciou que seria realizado o certame ou a autoridade que tentou desacreditar a informação?

 

SÓ PARA LEMBRAR

Sete tribunais estaduais foram notificados pelo Supremo Tribunal de Justiça por possível descumprimento dos limites para penduricalhos. Brasília, Rio Grande do Norte, Goiás, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro e Rondônia. A Justiça descumprindo uma medida judicial. Chegamos ao extremo.

 

PARA REFLETIR

“Ler fornece ao espírito materiais para o conhecimento, mas só o pensar faz nosso o que lemos”.

John Locke

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