Números não podem valer mais que pessoas
O anúncio da desativação de uma turma da Escola Municipal Nossa Senhora Aparecida, no Rincão do Sossego, acende um alerta que vai muito além da simples transferência de quatro alunos da pré-escola. O episódio expõe o esvaziamento do campo e a crônica dificuldade de promover a sucessão familiar nas propriedades rurais. No entanto, em vez de o poder público agir como um indutor de fixação das famílias no interior, a Secretaria Municipal de Educação estava optando pelo caminho inverso, empurrando a comunidade para o êxodo urbano. Ainda bem que recuou da ideia.
Fechar uma turma e transferir crianças pequenas na metade do ano letivo já é, por si só, uma violência pedagógica e social. Agrava a situação o fato de os pais denunciarem a total falta de diálogo por parte da gestão municipal. Como bem apontaram os vereadores Andreia Bernardi e Francisco Medeiros, a justificativa financeira para a medida é insustentável. A economia gerada com o fim do bônus de “difícil acesso” da professora gira em torno de modestos R$ 20 mil anuais. Valeria a pena desestruturar a rotina de quatro famílias e prejudicar o desenvolvimento dessas crianças por uma cifra tão irrisória?
Efeito dominó
A conta apresentada é de uma miopia assustadora. Sem a base da pré-escola, o número de alunos no primeiro ano despencará nos próximos ciclos, criando um efeito dominó que culminará no fechamento total da instituição. O impacto dessa política de austeridade de centavos é devastador. Ao retirar a escola da comunidade, o município estimula diretamente a saída dos moradores. Se o filho precisa estudar na cidade, os pais acabam se mudando junto, acelerando o abandono das pequenas propriedades.
O serviço público existe para atender e proteger as pessoas, não para se render cegamente a planilhas frias de custos. Tratar a educação no campo como um negócio deficitário é ignorar o papel estratégico da produção agrícola e da vida comunitária. Governar exige sensibilidade e visão de futuro. Economizar uma quantia ínfima sacrificando o direito de famílias rurais não é eficiência administrativa; é uma irresponsabilidade social que cobra um preço alto demais de quem mais precisa.
Sucessão familiar rural sufocada
Falar em sucessão familiar no campo é tema recorrente, mas a realidade prática caminha na direção oposta. O estímulo para que o jovem permaneça no interior, especialize-se e assuma o legado das propriedades dos pais é esmagado por uma rotina de isolamento e precariedade. O jovem de hoje quer produzir, mas também quer o básico para viver com dignidade no século 21. Sem isso, a porteira de saída se torna a única opção viável.
O cenário atual é um combo de desestímulo. Os sinais de internet e telefonia celular nas áreas rurais são vergonhosos, impedindo desde o acesso ao lazer até o uso de tecnologias agrícolas modernas. Para piorar, as estradas vicinais trafegam entre o barro e o buraco, encarecendo o escoamento da produção e dificultando o direito de ir e vir. Quando o poder público alia a essa falta de infraestrutura digital e física o desmonte da rede de ensino local, a senha é para o abandono do interior.
A sucessão familiar rural não acontece por gravidade ou romantismo; ela exige políticas públicas integradas que criem alternativas viáveis de permanência. Garantir internet de qualidade, estradas trafegáveis e escolas perto de casa não é luxo, é investimento estratégico na segurança alimentar e na economia de toda a região. Criar entraves burocráticos ou fechar estruturas básicas só complica o que já é difícil.
Vergonha, dinheiro público e hipocrisia
O recente escândalo em Surubim, no Agreste de Pernambuco, expõe um absurdo. O prefeito Cleber Chaparral (UB) subiu ao palco para chamar o sertanejo Gusttavo Lima de “ladrão” após o cancelamento de um show por motivos de saúde. O gestor cobrou a devolução de R$ 1,5 milhão pagos antecipadamente. O episódio, contudo, revela que o verdadeiro problema vai muito além do não cumprimento de um contrato: reside na inversão de prioridades de municípios de pequeno porte.
Em uma cidade com menos de 70 mil habitantes, destinar R$ 1,5 milhão para uma única apresentação artística é uma afronta à responsabilidade fiscal.
Além do escândalo financeiro, o caso mostra ainda a profunda hipocrisia que domina parte do meio sertanejo. Tornou-se rotina ver expoentes desse gênero musical discursarem contra a Lei Rouanet, acusando colegas de “viverem de dinheiro público”. Trata-se de uma narrativa distorcida. A Lei Rouanet não repassa dinheiro diretamente do Tesouro; ela funciona por incentivo fiscal, permitindo que empresas privadas destinem parte de seus impostos a projetos culturais aprovados.
O verdadeiro “dinheiro fácil” está nos cofres de prefeituras do interior, muitas vezes deficitárias ou dependentes de repasses federais. É nesses palcos que contratos sem licitação drenam recursos públicos diretos para pagar cachês inflacionados como esse de Surubim, que deixa claro que o discurso moralista cai por terra quando o dinheiro público financia a própria engrenagem que os críticos fingem combater.
Latam pode voltar a operar em Santo Ângelo
A reserva de espaço pela Latam no novo terminal de passageiros do Aeroporto Regional Sepé Tiaraju é um fato importante. O movimento, revelado pelo deputado estadual Eduardo Loureiro, funciona como um termômetro valioso: grandes companhias aéreas não dão passos desse tamanho sem um planejamento estratégico milimétrico. É um indicativo robusto de que a Capital das Missões está novamente no radar da empresa.
O histórico recente ainda é cercado de ressentimento e dor. A parceria anterior entre Latam e Voepass — que conectava Santo Ângelo a Porto Alegre e Florianópolis — foi abruptamente interrompida após o trágico acidente aéreo que chocou o país e forçou a reestruturação e extinção dessas linhas regionais. Desde então, a lacuna deixada na malha aérea local cobra o seu preço no desenvolvimento regional.
O interesse da Latam em fincar bandeira na nova estrutura do aeroporto renova a expectativa de um recomeço necessário. A infraestrutura qualificada atrai investimentos, e o retorno da gigante da aviação comercial seria o carimbo definitivo de que a região voltou a se conectar com os grandes eixos econômicos. Resta agora torcer e cobrar para que a reserva de espaço físico saia do papel e se transforme, muito em breve, em bilhetes emitidos e decolagens autorizadas.
Perguntar não ofende
“Se arrependimento matasse…” A frase que representa o remorso em determinada situação é a mais ouvida em relação ao cenário local. Por que será?
Só para lembrar
Uma vergonha, o STF recuou e voltou a considerar parte dos penduricalhos. Sendo assim, juízes e procuradores vão fracionar as férias, licença-prêmio e o recesso judiciário. Vão ter 178 dias de férias. Mais da metade dos 365 dias do ano.
Para refletir
“O único indício do que o homem pode fazer é aquilo que o homem já fez.” R. G. Collingwood, frase usada ao final do excelente filme Nuremberg, à disposição no Prime Vídeo

