Pressão popular supera as contradições e rejeita reposição de agentes políticos
A rejeição da reposição salarial dos agentes políticos de Santo Ângelo carrega uma lição clara: o bolso do governante sempre será o primeiro alvo do contribuinte em tempos de crise. Quando a própria administração justifica a falta de retroatividade ou de ganho real baseando-se na fragilidade financeira do Município, qualquer tentativa de reajuste para o primeiro escalão perde o nexo.
Há uma contradição escancarada na postura dos defensores do aumento. Políticos adoram repetir em palanques que são “empregados do povo”. Se o jargão demagógico fosse verdadeiro, eles deveriam aceitar a soberania do patrão — que, neste caso, disse um sonoro “não”. A mobilização da comunidade, impulsionada por notas oficiais de entidades locais de classe, mostrou que a sociedade civil organizada ainda consegue ditar o ritmo do debate.
Como diziam os antigos observadores do sistema: política é como feijão, só funciona na pressão. O recuo institucional não foi um ato de benevolência dos parlamentares, mas sim o resultado direto do constrangimento público e da vigilância popular.
E a pressão agora é imediata. Aqueles que se acostumaram com a repercussão apenas após os fatos, acabam quebrando a cara. Os fatos repercutem antes, durante e depois. Essa noção é fundamental para quem está na vida pública.
O combinado não sai caro
No debate sobre a remuneração pública em Santo Ângelo, um argumento frequentemente repetido ganhou força: o de que os salários dos agentes políticos locais são inferiores aos de municípios vizinhos, como Santa Rosa e Ijuí. O dado é real e factual. No entanto, usá-lo para justificar reajustes em momentos de crise revela uma profunda inversão de valores na gestão pública.
Quem disputa uma eleição ou aceita o convite para assumir uma secretaria conhece detalhadamente os salários. O teto, as condições financeiras do município e as limitações orçamentárias são públicos. Aplica-se aqui o velho e infalível ditado popular: o combinado não sai caro. A vida pública não é um mercado corporativo tradicional onde se barganha bônus por insatisfação; é um pacto de representação aceito voluntariamente.
Ingressar no governo ciente dos valores e, depois de empossado, manobrar para aumentá-los sob a justificativa de defasagem regional ignora a realidade local. A comparação justa não deve ser feita com as cidades vizinhas que possuem outras matrizes econômicas, mas sim com a capacidade de pagamento do próprio contribuinte santo-angelense.
IPE com reajuste maior do que a reposição
Só para ter um comparativo, o reajuste dos planos do IPE Saúde para os servidores municipais de Santo Ângelo ficou em 4,39%. Ou seja, superior à reposição de 4,26% apresentada pelo Executivo.
Sem contar a mudança em relação aos dependentes, que forçou muita gente a abrir mão do plano devido ao elevado custo. E essa questão dos dependentes ficou em aberto, com a promessa do Executivo em rediscutir e encontrar uma saída menos onerosa aos servidores. Porém, até agora, ficou só na promessa. Mais uma não cumprida, diga-se de passagem.
Excesso de fios segue sendo problema
O cenário registrado na Rua Marechal Floriano, bem em frente à Praça do Tamoio no último fim de semana, é o retrato do descaso urbano. Fios caídos ao solo, amarrados em lixeiras e transformados em verdadeiras armadilhas para pedestres e motoristas de veículos de maior porte. O problema do excesso de fiação aérea em Santo Ângelo não é novidade, mas a sua persistência diante de tantas cobranças já se tornou intolerável.
É evidente e compreensível o crescimento do mercado de telecomunicações e a expansão das empresas de internet, serviços essenciais para o dia a dia da comunidade. O que não se justifica é a total ausência de responsabilidade técnica e de fiscalização rigorosa sobre o que é deixado para trás. Cabos obsoletos, rompidos ou simplesmente abandonados nos postes violam o direito de ir e vir dos cidadãos com segurança e degradam a estética da nossa cidade.
Multa pode ser solução
O Ministério Público já liderou ações e debates importantes sobre o tema no município. No entanto, reuniões e notificações burocráticas parecem ter efeito temporário. Assim que a poeira baixa, o emaranhado de perigos volta a crescer sobre nossas cabeças — e sob nossos pés. Santo Ângelo precisa de uma intervenção efetiva e definitiva.
As empresas concessionárias e a distribuidoria de energia, detentora dos postes, deveriam ser responsabilizadas e multadas severamente pelo manejo inadequado dessa infraestrutura. Não dá mais para empurrar esse problema com a barriga.
Perguntar não ofende
Não querer buscar recursos dos governos federal e estadual por ser adversário político dos mandatários e prejudicar a sua comunidade é burrice, incompetência ou maldade?
Só para lembrar
Maldade é tentar desmentir algo documentalmente comprovado. E depois ainda passar o fiasco de ficar comprovado que a mentira era a sua e não de quem divulgou a ação.
Para refletir
“Se acha que a competência custa caro, experimente a incompetência.”
Miguel Monteiro

