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SANTO ÂNGELO
13 de junho de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

Fechado por motivo de futebol

  • junho 13, 2026
  • 2 min read

A cobrança de pênalti do francês Bellone é a primeira lembrança que tenho da seleção brasileira de futebol.A bola chocou-se na trave erebateunas costas do goleiro Carlos.

Gol da França!

Alguém desligou a Telefunken.

O silêncio quietinho dos sonhos infantis perdidos espalhou-se pela casa.

Aos poucos, a gurizada reuniu-se para jogar bola na ladeira. A paixão futebolística ensinava-nos, pela primeira vez, a gramática da derrota. Chutamos a desbotada bola marrompara driblar as lágrimas naquela tarde cinza do distante junho.

Na Copa de 1986, la mano de Dios havia escolhido Maradona para nos convencer da existência do divino no campo terreno.

As luzes apagaram-se na Colômbia: estranha razão celeste para o menino Manuel Alba Olivares que assistia ao último gol de sua vida. Eduardo Galeano conta que o colombiano perdeu a visão após a jogada mágica de Maradona.

Um novo torneio futebolístico inicia-se ao norte do Equador e, apesar das engrenagens capitalistas do mundo da bola, vamos esquecer por alguns instantes as guerras, a exploração econômica, a elitização do esporte e as desigualdades globais.

Em todos os continentes, haverá uma criança de olhos fulgurantes, esperançosa, torcendo por heróis construídos nas singularidades culturais, e não será diferente em nossa pátria forjada pelas chuteiras nos já escassos campos de barro e poeira.

Seremos humanos no grito de gol.

É no gol que viveremos a efêmera ilusão de que somos iguais.

Para David Goldbatt,o futebol “é um lugar estranho e precioso, parte da nossa cultura comum, uma herança fabulosa de mais de cem anos de jogo, um repositório de identidades poderosas e solidariedades, um complexo jogo de rituais coletivos e conversas públicas num mundo profundamente individualista, atomizado e dividido, um lugar onde nos misturamos socialmente, que trata do nós, e não do eu.”

Ser torcedor também não nos desqualificará como cidadãos, tampouco fará de nós seres míopes em relação às adversidades sociais, econômicas e ameaças antidemocráticas.

Como na obra de Galeano, talvez seja salutar para nossa alma, ao menos por alguns dias, fechar as portas das nossas inquietações cotidianas por motivo de futebol.

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Andrey Régis de Melo

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