O canto das reduções não silencia

A arte tem suas nuances. Na noite da quinta-feira (28), quando o palco do 39º Carijo da Canção Nativa, em Palmeira das Missões, recebeu a composição “Quatro troncos”, ninguém poderia prever o tamanho do simbolismo que se desenhava ali. A obra, com letra de Flávio Saldanha e Flávio Arthur Saldanha e melodia de Tuny Brum, foi a última a se apresentar. Poucas horas depois, a ocorria o falecimento de Pedro Ortaça.
Mais do que uma feliz coincidência do destino, o episódio se consagrou como a última e mais legítima homenagem prestada em vida a um dos pilares da nossa identidade. O refrão, que ecoou forte no festival, reza: “Pedro Ortaça um galo forte com seu timbre de atavismo; o Noel com a liberdade, reza o próprio catecismo; Cenair canta o destino do guarani das Missões e Don Jayme toca o verso com os sinos das reduções”.
A apresentação no Carijo provou que o fogo dessa herança não vai apagar. A interpretação da música ficou a cargo do garruchense Ângelo Franco, um artista que há muito tempo entendeu que cantar as Missões vai além do entretenimento; é um sacerdócio cultural.
Com sua voz potente e um respeito quase sagrado pela ancestralidade, Franco se consolida, por direito, mérito e postura, como um legítimo herdeiro da magnitude dessa obra.
Negar a realidade tem um custo
Na gestão pública, a distância mais curta entre um problema e a sua solução costuma ser a mais óbvia, embora a mais evitada: o diálogo. A recente polêmica em torno da saúde pública em Santo Ângelo é o retrato acabado de como o orgulho político e a pressa em reagir a críticas podem transformar uma demanda legítima da comunidade em uma crise desnecessária.
Bastava um pouco de humildade administrativa. Em vez de blindar-se sob o velho e surrado argumento da “perseguição política”, o caminho correto seria ouvir, analisar o quadro com maturidade e admitir que ajustes, adequações e ampliações no atendimento são dinâmicas naturais de qualquer sistema de saúde que atende o povo na ponta.
Uma das principais queixas da comunidade era a ausência de um aparelho de raio-X na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A demanda era real, tanto que se moveu a engrenagem política para resolvê-la: a emenda foi articulada pela deputada federal Daiana Santos (PT), com a intermediação local do vereador Cristian Fontella (PT), confirmada em agosto e liberada em dezembro do ano passado.
Na última segunda-feira, a Secretaria Municipal de Saúde finalmente colocou o equipamento em funcionamento. O resultado prático? Mais de 30 exames realizados logo no primeiro dia de operação.
Este número expressivo não é apenas uma estatística de atendimento; é a prova incontestável de que a população tinha toda a razão ao cobrar o serviço. O raio-X na UPA não era um capricho da oposição; era uma necessidade urgente de quem precisa de diagnóstico rápido.
Choque desnecessário
O erro da gestão não foi a demora técnica na instalação — processos burocráticos e adequações de salas de exames demandam tempo e isso é compreensível. O erro foi a postura.
Quando o debate esquentou, teria sido muito mais inteligente e transparente informar a comunidade: “O aparelho está comprado, estamos na fase de instalação e licenciamento e em breve o serviço estará rodando”. Isso esvaziaria a polêmica e traria o cidadão para o lado da transparência.
Preferiu-se, contudo, o choque contra a população e contra a própria realidade dos fatos. No fim das contas, a máquina pública teve que ceder à realidade, mas o desgaste político — este sim, totalmente evitável — acabou ficando na conta de quem escolheu o confronto em vez da eficiência.
Vacina é proteção, mas negacionismo atrapalha
A solução imediata para estancar essa crise dos casos respiratórios passa por três pilares inegociáveis. A vacinação, que não é escolha individual quando o impacto é coletivo. Ela é a barreira que impede o vírus de evoluir para casos fatais.
Outras medidas como isolamento ao apresentar sintomas gripais e evitar o convívio direto com outras pessoas deveria ser uma regra de etiqueta e humanidade. Iniciativas como a da escola Raio de Sol, mantida pela Apae, ao adotar o uso de máscaras faciais, não são retrocessos; são demonstrações de inteligência epidemiológica e empatia.
Perguntar não ofende
É tão difícil se atualizar? Buscar informações? Sobram na Câmara de Vereadores de Santo Ângelo projetos que citam órgãos que não existem mais, inclusive, secretarias municipais. Fica feio, parece desleixo.
Só para lembrar
Pelo que insistem em mostrar, teremos uma campanha eleitoral completamente desvirtuada do que seria o ideal. Problemas cruciais serão deixados de lado para tratar da insistência no tumulto.
Para refletir
“O que nós temos de problema sério à nossa frente é um estado que é inimigo da sociedade brasileira, da forma como ele está constituído, pelo preço que ele custa, pelo pouco que produz e pelo muito que desvia”.
Ricardo Boechat, jornalista

