Começou o mês seis
Começou o mês seis.
E há uma poesia silenciosa nisso. Junho não chega como janeiro, cheio de promessas novas, nem como dezembro, carregado de despedidas. Junho chega no meio. Discreto. Quase tímido. Mas basta olhar para ele com atenção para perceber: seis é metade de doze.
E, em menos de trinta dias, estaremos na segunda metade do ano. A segunda. A última metade.
Há algo de terminal nessa ideia. Não necessariamente triste, mas profundo. Como uma tarde de domingo em que ainda há sol na janela, ainda há café na mesa, ainda há conversa possível, mas alguma coisa dentro da gente já sabe que o dia começou a se despedir.
O tempo tem essa delicadeza cruel. Ele passa sem pedir licença. Não espera a gente criar coragem, não aguarda a mágoa sarar, não pausa para que o amor amadureça, não volta para que digamos aquilo que ficou preso na garganta.
E quantas coisas deixamos para depois?
Um abraço. Um perdão. Uma visita. Uma mensagem. Um beijo mais demorado. Um “fica mais um pouco”. Um “eu te amo” que parecia óbvio demais para ser dito.
Os amores, talvez mais do que tudo, sofrem com essa ilusão de que haverá tempo. A gente acha que poderá amar melhor amanhã. Que poderá cuidar mais quando a vida acalmar. Que poderá sentar sem pressa depois que resolver tudo. Mas a vida, quase sempre, nunca fica pronta. E o amor, quando espera demais, às vezes cansa de esperar.
Há amores que moram na mesma casa e já quase não se olham. Há amores antigos que viraram fotografia. Há amores que acabaram por falta de palavra. Há amores que ainda poderiam ser salvos por um gesto simples. Há amores que não pedem grande espetáculo, apenas presença. Porque amar também é perceber o tempo.
É entender que ninguém é eterno no sofá da sala. Que os pais envelhecem. Que os filhos crescem. Que os amigos se afastam. Que o amor da vida também precisa ser escolhido de novo em dias comuns, sem música, sem festa, sem plateia.
Junho nos lembra que não controlamos essa variável chamada tempo. Controlamos a agenda, o celular, o portão, a conta bancária, a aparência das fotos. Mas não controlamos o relógio invisível que nos atravessa.
Por isso, talvez a maior inteligência seja fazer a vida acontecer hoje. Amar hoje. Ligar hoje. Pedir desculpas hoje. Segurar a mão hoje. Dizer hoje o que talvez amanhã já chegue tarde.
A segunda metade do ano se aproxima. Que ela nos encontre menos distraídos.
Porque o tempo não poupa nada e ninguém. Mas, enquanto ele passa, ainda podemos escolher passar por ele com mais amor.

