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SANTO ÂNGELO
30 de maio de 2026
Rádio AO VIVO
Opinião

A lista dos amigos e o meio-fio

  • maio 30, 2026
  • 3 min read

Talvez nem faça tanto tempo assim, mas parece outra vida. Havia uma época em que a felicidade cabia no meio-fio de uma calçada. A gente sentava ali, sem cerimônia, sem roupa escolhida para foto, sem legenda, sem precisar provar nada para ninguém. Bastava uma roda de amigos, um tererê passando de mão em mão, uma Grapete, uma Cyrilla ou uma Coca-Cola comprada entre oito.

A conversa era fora. E talvez fosse justamente por isso que fazia tanto sentido. Falava-se de tudo e de nada. Do jogo, da escola, do vizinho novo, do futuro que ninguém entendia. O chinelo no pé, a poeira da rua, o riso fácil, a simplicidade de estar junto sem precisar marcar horário, sem precisar consumir, sem precisar aparentar.

Naquele tempo, muitos tinham menos dinheiro. As casas eram mais simples, os carros mais raros, as viagens quase inexistentes, as roupas repetidas sem vergonha. Havia a humildade de sentar no meio-fio e pertencer a algum lugar.

Hoje, em tese, melhoramos. As casas cresceram, os celulares ficaram caros, as roupas ganharam marca, as fotos ganharam filtro, as vidas ganharam vitrine. Mas, curiosamente, nunca vi tanta gente ansiosa, deprimida, cansada e sozinha. Nunca vi tanta dor escondida atrás de pose. Nunca vi tanta aparência de vitória com gosto de vazio.

Onde foi parar aquela humildade de sentar no meio-fio?Onde foram parar as conversas depois da rotina do dia a dia?E, principalmente, onde foram parar os amigos? Pera aí. Eu falo de amigos, daqueles, com A maiúsculo, que nos viram crescer junto com eles.

Escutei recentemente “A Lista”, de Oswaldo Montenegro, e alguns versos ficam ecoando como uma pergunta que a vida faz sem pedir licença:

“Faça uma lista de grandes amigos. Quem você mais via há dez anos atrás?Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?”

E talvez doa porque a resposta não está na música. Está dentro da gente.A vida foi passando. Uns ficaram longe. Outros inacessíveis. E alguns, talvez, nós mesmos deixamos de procurar. Trocamos o banco da calçada pelo sofá solitário. Trocamos a roda de conversa pela rolagem infinita da tela. Afeto por curtida. Encontro por desculpa.

Não se trata de romantizar a pobreza, nem de negar as conquistas. O problema é quando, no caminho, a gente compra tudo, menos tempo. Conquista tudo, menos paz. Sobe na vida, mas perde a capacidade de sentar no meio-fio.

Talvez precisemos também de mais fins de tarde no meio-fio.

Porque, no fim, talvez felicidade nunca tenha sido tão cara.Talvez ela só esteja esperando, humilde e silenciosa, no velho meio-fio onde um dia deixamos nossos amigos.

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NORBERTO WEBER WERLE

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