Pedro Ortaça
O Rio Grande do Sul amanheceu mais silencioso. Faleceu Pedro Ortaça, um dos maiores símbolos da cultura missioneira e um dos quatro artistas que ajudaram a construir a música missioneira.
Pedro Ortaça nunca foi apenas um cantor. Ao longo de suas andanças, tornou-se bandeira e guardião da memória de um povo forjado no barro vermelho.
Nascido no Pontão, interior de Bossoroca, em 1942, descendente de indígenas, Pedro cresceu ouvindo o pai cantar e a mãe e o avô tocarem gaita. Costumava dizer que sua primeira escola musical foram os pássaros e o vento das Missões. Aprendeu a tocar de ouvido, absorvendo os sons da natureza e transformando-os em arte.
Sua trajetória se confunde com a própria construção da identidade missioneira. Ao lado de Noel Guarany, Jayme Caetano Braun e Cenair Maicá, formou os chamados “Quatro Troncos da Cultura Missioneira”, expressão que ultrapassou o universo musical para se tornar referência cultural de toda uma região.
Talvez o maior legado de Pedro tenha sido sua capacidade de enxergar além dos monumentos. Enquanto muitos cantavam as ruínas e o passado jesuítico-guarani, ele insistia em cantar as pessoas.
Ortaça cantava o trabalhador rural, os esquecidos, os pobres e os descendentes dos povos guaranis. Para ele, a história das Missões não estava apenas nas pedras de São Miguel, mas nos homens e mulheres que continuavam carregando essa herança.
Sua obra sempre teve um caráter de resistência. O próprio Ortaça lembrava que, no início, a música missioneira enfrentou rejeição justamente porque denunciava injustiças e o descaso com a cultura regional. Ainda assim, permaneceu fiel às suas raízes.
Ortaça construiu uma identidade musical própria, marcada pela valorização da história missioneira, da cultura guarani e consciência de pertencimento a uma região singular da América do Sul.
Em 2008, recebeu do Ministério da Cultura o título de Mestre da Cultura Popular Brasileira. Era um reconhecimento merecido, mas insuficiente para medir a grandeza de sua contribuição.
Pedro Ortaça segue a sina de eterno pássaro canoro na imensidão celeste, permanecendo nos Sete Povos a reminiscência do dedilhar nas milongas e o timbre de galo ecoando no vento paraencantar as futuras gerações.

