A lança fez-se guitarra e o guerreiro pajador

O Rio Grande do Sul amanheceu neste sexta-feira (29) com o vazio de um silêncio irreparável em sua identidade cultural. A morte de Pedro Ortaça, aos 83 anos, não representa apenas a perda de um talentoso cantor e compositor; representa o fechamento de um dos capítulos mais altivos, profundos e corajosos da história da música nativista. Com ele, tomba o último dos Quatro Troncos Missioneiros.
A expressão “tronco”, tão enraizada na paisagem e no vocabulário do bioma gaúcho, nunca foi um mero capricho poético. Dizia respeito à solidez. Ao lado de Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Cenair Maicá, Ortaça sustentou essa essência, desafiando a mesmice e o esquecimento de personagens tão importantes na nossa história.
Diferente de uma vertente do tradicionalismo que por vezes se voltou apenas à exaltação romântica do passado, Ortaça e seus três companheiros de Missões trouxeram para o centro do palco a verdade da terra. Sua obra é eterna justamente por isso. É a celebração da herança indígena e a epopeia dos povos guarani. É o canto que dá voz ao peão oprimido, ao homem da terra e às injustiças do campo.
Dizer que um ciclo se encerra com a morte de Pedro Ortaça é uma verdade factual, uma mentira poética. A madeira de lei que forjou os Troncos Missioneiros não cupincha.
Escudo muito frágil
Prefeito Nívio Braz se agarra no fato que as mortes não ocorreram na UPA. É fato. Tem razão. Mas isso não pode ser escudo para não discutir as possíveis falhas no atendimento. É básico.
Embora a informação seja tecnicamente correta, críticos e familiares apontam que o argumento desvia o foco do problema principal: o acolhimento, o tempo de espera e o manejo inicial dos pacientes.
Outra justificativa que gerou controvérsia foi o dado apresentado pela administração de que 18 mortes por complicações respiratórias foram registradas no Hospital Regional das Missões (HRM), e não na UPA.
O argumento, contudo, esbarra na própria dinâmica do Sistema Único de Saúde (SUS): por ser uma unidade intermediária de urgência e emergência, a UPA tem justamente a função de estabilizar casos graves e transferi-los para o hospital de alta complexidade. Portanto, a letalidade no ambiente hospitalar não anula a necessidade de avaliar se o primeiro atendimento na UPA foi ágil e eficaz.
O tamanho da insatisfação
A resposta da comunidade à crise não tem se limitado aos canais oficiais. Um grupo em um aplicativo de mensagens instantâneas já reúne cerca de mil moradores de Santo Ângelo. No espaço, a maioria dos relatos aponta para experiências negativas na UPA, que envolvem desde a demora no atendimento até a percepção de falta de sensibilidade na triagem de casos que se agravaram posteriormente.
O volume de depoimentos convergentes tem dificultado a tentativa do governo de classificar as reclamações como casos isolados ou motivação puramente política.
Protesto agendado e a necessidade de diálogo
Em vez de arrefecer, a insatisfação popular culminou na convocação de um protesto, agendado para este domingo (31). Nos bastidores políticos, o movimento inicial da administração municipal de tentar desconsiderar ou minimizar a legitimidade da manifestação é um equívoco estratégico. A tentativa de blindagem técnica afasta a gestão da realidade sentida pela população na fila de espera.
Setores da sociedade civil defendem que o caminho mais produtivo para o município seria a abertura imediata de um canal de debate franco, transparente e focado no aprimoramento da rede pública de saúde. O isolamento institucional ou a recusa em encarar as falhas estruturais, em meio a um surto real de síndromes respiratórias no Estado, tende a ampliar o desgaste da gestão e, pior, prejudicar o atendimento à comunidade no momento em que ela mais precisa de proteção.
Tragédia serve de alerta
A dor da perda de dois adolescentes em Santo Ângelo acendeu a sobre a eficiência e a agilidade do atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). É legítimo — e necessário — que a comunidade exija respostas, que a gestão pública seja colocada em xeque e que os protocolos sejam revisados. No entanto, focar apenas na engrenagem do atendimento é enxergar metade do problema. Nos dois casos específicos, a causa da morte foi a Influenza.
O Rio Grande do Sul enfrenta um agravamento severo nos casos de síndromes respiratórias agudas graves, cujo reflexo mais cruel é a superlotação do sistema hospitalar. O caos na ponta do atendimento é, muitas vezes, o resultado da falta de prevenção.
Logicamente que não se aceitam a perda de vidas jovens para uma doença previsível e amplamente combatível. Se o sistema de saúde precisa de reformas, a nossa postura coletiva diante dos vírus respiratórios precisa de um choque de realidade.
Vacina é proteção, mas negacionismo atrapalha
A solução imediata para estancar essa crise passa por três pilares inegociáveis. A vacinação, que não é escolha individual quando o impacto é coletivo. Ela é a barreira que impede o vírus de evoluir para casos fatais.
Outras medidas como isolamento ao apresentar sintomas gripais e evitar o convívio direto com outras pessoas deveria ser uma regra de etiqueta e humanidade. Iniciativas como a da escola Raio de Sol, mantida pela Apae, ao adotar o uso de máscaras faciais, não são retrocessos; são demonstrações de inteligência epidemiológica e empatia.
Prevenção não é esquecer o debate
Discutir os erros estruturais da UPA é fundamental para que o sistema melhore, mas culpar apenas a estrutura e ignorar o avanço do vírus é uma miopia perigosa. A saúde pública é uma via de mão dupla. De um lado, o Estado precisa garantir atendimento digno e rápido; do outro, a população precisa reativar os escudos de proteção que parecemos ter esquecido com o fim da pandemia.
Proteger nossos jovens e idosos exige mais do que indignação nas redes sociais. Exige braço estendido para a vacina, máscara no rosto quando necessário e a consciência de que o vírus não espera a burocracia resolver seus problemas.
Perguntar não ofende
Cobrar cuidados e atendimento digno na saúde não é politizar. Querer justificar as cobranças com esse argumento é raso, mostra a vontade de não discutir realmente o assunto. Por que insistir nessa posição?
Só para lembrar
Não dá para se esconder em redes sociais para atacar as pessoas. Isso é verdade. Entretanto, é bom lembrar que tem um grupo político que vive disso há muito tempo. Aliás, só trabalha com isso, com desinformação e ataques.
Para refletir
“O que é assaltar um banco, comparado a fundar um banco?”
Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão

