Processo interno da Caixa aponta suposta fraude em financiamentos imobiliários no RS

Novos documentos obtidos pela RBS TV reforçam suspeitas de irregularidades em financiamentos habitacionais no Rio Grande do Sul. Um processo administrativo interno da Caixa Econômica Federal detalha como um ex-funcionário da instituição teria utilizado o cargo para beneficiar uma construtora em um suposto esquema de fraude ligado ao sonho da casa própria.
O ex-bancário Pedro André Marchese Sessegolo atuava até o ano passado em uma agência da Caixa em Alvorada. Segundo o processo que resultou em sua demissão por justa causa, ele teria “utilizado o cargo em benefício próprio” e tratado de forma inadequada informações sigilosas de clientes.
O comerciário Guilherme Both e a esposa, Bruna, moradores de Porto Alegre, afirmam que Pedro era responsável pela construtora Vitruviana, que recebeu cerca de R$ 290 mil para a construção da residência do casal.
Segundo Guilherme, os atendimentos e orientações aconteciam dentro da própria agência bancária.
— A gente não entendia nada de financiamento. E ele dizia que conseguia ajeitar e encaminhar tudo para nós — relatou.
O casal afirma que, apesar do financiamento ter sido liberado, a obra ficou inacabada. Pelo modelo de financiamento para construção, a Caixa libera recursos conforme laudos técnicos indicam avanço da obra. No entanto, documentos apresentados pela construtora apontariam etapas concluídas que sequer haviam sido iniciadas.
— O relatório indicava 75% dos revestimentos internos concluídos, mas não havia nem reboco na obra — afirmou Guilherme.
Após denúncias feitas por clientes à Ouvidoria da Caixa, a investigação interna encontrou trocas de mensagens e e-mails entre Pedro Marchese e outro funcionário do banco. Segundo o relatório, em uma das conversas o ex-funcionário menciona valores retidos da construtora e solicita agilidade em liberações de pendências para clientes.
O advogado Adriel Gustavo Kuphal, que representa famílias que alegam terem sido prejudicadas, afirma que havia direcionamento de clientes para a agência de Alvorada.
— Os contratos eram negociados com o Pedro e depois os clientes eram encaminhados para aquela agência, onde supostamente seria mais fácil conseguir aprovação do crédito — disse.
A defesa de Pedro Marchese nega irregularidades. O advogado André Guimarães Rieger afirma que o ex-funcionário apenas buscava dar celeridade aos processos e que as conversas apresentadas não representam a totalidade de sua atuação profissional.
A Caixa Econômica Federal informou que possui mecanismos rígidos de governança e compliance para apurar desvios de conduta e afirmou que qualquer suspeita de fraude é investigada com rigor.
O caso ganhou repercussão após reportagem exibida pelo programa Fantástico, que mostrou relatos de outras famílias com obras paralisadas após financiamentos liberados. Uma delas financiou mais de R$ 500 mil para a construção de uma casa que acabou abandonada pela construtora.
Em nota, a Caixa ressaltou que, nessa modalidade de financiamento, a responsabilidade pela administração financeira da obra é do cliente. O banco também informou que Pedro André Marchese Sessegolo recorre da demissão na Justiça do Trabalho e nega ter causado prejuízos à instituição.

