
O Rio Grande do Sul registrou 24 feminicídios entre janeiro e março de 2026. O número representa aumento de 50% em relação ao mesmo período do ano passado, quando 16 mulheres foram mortas por questões de gênero.
Dados da Polícia Civil indicam que, em 83% dos casos, as vítimas não tinham medidas protetivas em vigor contra os agressores. Ainda assim, metade delas já havia feito algum registro policial antes do crime.
A diretora da Divisão de Proteção e Atendimento à Mulher, delegada Waleska Alvarenga, alerta que a ausência de medida protetiva não pode ser usada para responsabilizar as vítimas. Segundo ela, mulheres em situação de violência levam, em média, até 10 anos para buscar ajuda. O principal desafio, afirma, é agir antes que o crime aconteça.
O levantamento mostra que janeiro concentrou 12 casos, seguido por oito em fevereiro e quatro em março. Na maior parte das ocorrências, os autores eram companheiros ou ex-companheiros das vítimas: 13 ex-parceiros e 10 que ainda mantinham relacionamento. Um dos casos envolve uma mulher apontada como autora da morte da companheira.
A exceção ao padrão é o caso mais recente, o de Dione Poisl, de 74 anos, morta pelo próprio filho, conforme investigação da Polícia Civil.
Entre os suspeitos, 75% possuíam antecedentes policiais e 12,5% já tinham registros por violência doméstica. Armas brancas foram usadas em 58% dos crimes, enquanto 20% envolveram armas de fogo. A maioria das vítimas foi assassinada dentro de casa, cenário presente em 83% dos casos. Ao todo, 22 mulheres tinham filhos.
Entre os episódios registrados em março, está o de Daiane Rosa Zastrow, de 39 anos, morta em Esteio. O crime seguiu o padrão predominante: ocorreu dentro de casa, com uso de arma branca e teve como autor um ex-companheiro. O homem tinha histórico de violência doméstica e diversos antecedentes criminais. A vítima chegou a solicitar medida protetiva um mês antes, mas o agressor não havia sido intimado oficialmente.
Já em Camaquã, Angélica Ines Strelow, de 28 anos, foi morta a facadas pelo ex-companheiro mesmo com medida protetiva vigente e acompanhamento da Patrulha Maria da Penha. O autor se entregou à polícia e foi preso.
De acordo com a Polícia Civil, 87,5% dos suspeitos foram detidos. Em outros casos, os agressores morreram após o crime, como no assassinato da ex-vereadora Roseli Vanda Pires Albuquerque, em Nova Prata.
Para a delegada aposentada Silvia Coccaro, os dados evidenciam a necessidade de ampliar e integrar a rede de proteção às mulheres. Ela defende que o enfrentamento à violência vá além da punição e inclua suporte psicológico e ações preventivas.
A Polícia Civil afirma atuar em duas frentes: repressão, com investigações e prisões, e prevenção, por meio de campanhas e ações de conscientização. A estratégia também busca envolver os homens no debate sobre violência de gênero.
A Secretaria da Mulher do Estado informa que trabalha na capacitação de equipes nos municípios para identificar precocemente situações de risco e ampliar a proteção às vítimas.
O balanço ainda é preliminar e aguarda validação da Secretaria da Segurança Pública.
Fonte: GZH

