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SANTO ÂNGELO
04 de abril de 2026
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Opinião

A Páscoa de todos os dias

  • abril 3, 2026
  • 3 min read

A Páscoa sempre me pareceu mais do que uma data. No consultório, entre diagnósticos, exames e histórias de vida, ela ganha um outro significado.

Atendo gente todos os dias. Gente cansada, gente acelerada, gente que perdeu o rumo sem perceber. E, curiosamente, muitos chegam não apenas com sintomas neurológicos, mas com algo mais silencioso: uma espécie de esgotamento da alma. Não é depressão clássica, não é ansiedade pura. É uma desconexão com aquilo que um dia fez sentido.

Mês passado um paciente entrou no consultório com diagnóstico fechado, medicações em dose alta, rótulos bem definidos. Tremor, lentidão, rigidez.Tudo apontava para Parkinson. Mas, ao ouvir com calma, coisa que a pressa do mundo desaprendeu, percebia-se outra história. Havia ali não só um corpo adoecido, mas uma vida desalinhada. Valores abandonados, rotina desorganizada, escolhas feitas no automático. O cérebro sofre, sim. Mas muitas vezes sofre porque a vida perdeu coerência.

A Páscoa, no fundo, fala disso. Não apenas de morte e ressurreição, mas de travessia. De sair de um estado para outro. De entender que há momentos em que é preciso morrer simbolicamente para continuar vivendo de verdade.

No consultório, vejo pequenos renascimentos acontecerem. Não são milagrosos, não são instantâneos. São decisões. Ajustes. Às vezes, parar. Às vezes, recomeçar. Às vezes, simplesmente dizer “não” para aquilo que antes era tolerado por conveniência.

Renascimento psicológico não é trocar tudo de uma vez. É reorganizar o que estava fora do lugar. É reformatar o modo de viver, como quem limpa um sistema sobrecarregado. Tirar excessos. Redefinir prioridades. Voltar ao essencial.

E o essencial quase sempre é simples, embora difícil de sustentar: dormir melhor, respeitar o próprio tempo, cultivar relações verdadeiras, trabalhar com propósito, cuidar do corpo, preservar a mente. Mas, sobretudo, preservar valores.

No fim das contas, talvez a grande pergunta não seja sobre fé religiosa, mas sobre coerência de vida. Estamos vivendo de acordo com aquilo que acreditamos? Ou estamos apenas sobrevivendo dentro de um roteiro que já nem reconhecemos mais?

A Páscoa não acontece apenas no calendário. Ela acontece toda vez que alguém decide viver melhor do que estava vivendo.

O paciente do Parkinson teve remissão praticamente completa dos sintomas após voltar a falar com o pai e perdoar parte do passado. O perdão limpou o tremor. E o remédio deu conta do resto. Que assim seja.

 

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NORBERTO WEBER WERLE

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