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SANTO ÂNGELO
28 de maro de 2026
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Opinião

A matemática da vida

  • março 28, 2026
  • 3 min read

Eu passo boa parte da minha vida ouvindo histórias. Algumas são sobre dor, outras sobre perda, muitas sobre adiamento. Existe uma frase que aparece com frequência quase assustadora no consultório: “doutor, eu não tenho tempo”.

E sempre que escuto isso, não consigo deixar de pensar que, como neurologista, eu talvez veja o tempo de forma um pouco diferente. Para mim, o tempo não é abstrato. Ele é biológico. Ele é finito. Ele é, literalmente, tecido cerebral sendo usado, sinapses sendo fortalecidas ou perdidas, memórias sendo criadas ou desperdiçadas.

Vamos fazer uma conta simples. Todos nós recebemos exatamente 168 horas por semana. Nem mais, nem menos. É uma democracia perfeita, talvez a única que realmente funcione. Se alguém dorme 8 horas por noite, já subtraímos 56 horas. Restam 112. Se trabalha 8 horas por dia, cinco dias na semana, menos 40 horas. Restam 72.

Mesmo que você gaste mais de duas horas por dia com deslocamentos, refeições e obrigações inevitáveis, são menos 14 horas. Ainda sobram 58 horas.Cinquenta e oito horas.Isso não é falta de tempo. Isso é escolha.

E é aqui que a neurologia encontra a vida real. O cérebro humano é extremamente eficiente em criar justificativas para evitar desconforto. Ele prefere o automático, o previsível, o fácil. Procrastinar, adiar, dizer que “não dá” é, muitas vezes, apenas uma forma elegante de fugir daquilo que exige energia emocional.

Mas há um custo invisível nisso.Cada semana que passa sem viver aquilo que se sabe que faria bem não é neutra. Ela é acumulativa. O cérebro aprende. Ele reforça circuitos de evitação. Ele consolida hábitos de adiamento. E, quando percebemos, não é mais uma escolha pontual. É um padrão de vida.

Se vivermos 80 anos, teremos aproximadamente 4.160 semanas. Agora pense: quantas dessas semanas você já viveu no piloto automático? Quantas foram gastas esperando o momento ideal, a agenda perfeita, o cenário sem riscos? Não existe.

Do ponto de vista neurológico, esperar a condição ideal é uma armadilha. O cérebro sempre encontrará um novo motivo para postergar. Sempre haverá algo faltando.Enquanto isso, a vida segue. E ela não acumula para depois.

Nós não guardamos tempo. Nós só gastamos.Existe outra conta que me chama atenção. Se você passa apenas duas horas por dia em algo que não agrega nada real, são 14 horas por semana. Em um ano, isso dá mais de 700 horas. Em 10 anos, são sete mil horas.Isso é praticamente um curso superior inteiro desperdiçado em distrações que, no fim, nem lembramos.

Nós somos aquilo que repetimos.

Se repetimos adiamento, viramos especialistas em adiar. Se repetimos desculpas, viramos mestres em justificativas.

A pergunta é: com as suas 168 horas desta semana, o que você vai decidir viver?

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NORBERTO WEBER WERLE

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