Carnaval: entre máscaras e verdades
O Carnaval chega todos os anos como um convite. Convite para parar, para celebrar, para sair da rotina. As cidades se enchem de cor, de música, de gente sorrindo. Parece que o país inteiro decide, ao mesmo tempo, respirar diferente.
Mas o Carnaval nunca foi apenas festa.Ele carrega um simbolismo antigo: o de vestir máscaras, experimentar papéis, permitir-se ser outro por alguns dias. E talvez esteja aí sua maior força ou seu maior risco. Porque, enquanto alguns usam fantasias para brincar, outros podem usá-las para esconder o que sentem.
Cada pessoa encontra um jeito próprio de viver esses dias. Há quem precise da multidão. Há quem escolha o mar. Há quem viaje para longe. Há quem simplesmente fique em casa descansando. Comemorar não tem forma única. O importante é que tenha sentido.
Eu descobri o meu jeito.Para mim, Carnaval é a beira do rio. É a pescaria com amigos antigos de mais de 20 anos. É o silêncio confortável entre uma conversa e outra. É o chimarrão passando de mão em mão. É o pôr do sol refletindo na água enquanto alguém conta uma história que já ouvimos mil vezes e rimos como se fosse a primeira. Não há fantasia. Não há palco. Há presença.
Há algo de profundamente simbólico nisso tudo. Enquanto o mundo acelera, eu desacelero. A minha simplicidade vira luxo e a conversa vira espetáculo.
O Carnaval também pode ser um termômetro da alma. Se, em meio a tanta possibilidade de celebração, alguém se pergunta “eu tenho algo a comemorar?” e não encontra resposta, esse é um sinal que merece atenção. Não é sobre gostar ou não de festa. É sobre não conseguir sentir alegria em nada.
Às vezes, a máscara não é de papel. É um sorriso forçado. É uma participação automática. É a tentativa de preencher um vazio com barulho.
Por isso, mais importante do que vestir fantasias é saber tirá-las. Olhar para si e perguntar: essa comemoração é verdadeira? Ou estou apenas tentando não sentir o que me incomoda?
Celebrar é saudável. Faz bem. Aproxima pessoas. Cria memórias. Mas só quando nasce de dentro.O Carnaval passa. A música silencia. A rotina volta. O que fica é a verdade do que foi vivido.
Se houve sentido, fica leveza.Se houve apenas disfarce, fica cansaço.
Talvez o verdadeiro simbolismo do Carnaval não esteja na máscara que usamos, mas na coragem de retirá-la e descobrir que a melhor festa é aquela em que podemos ser exatamente quem somos.

