Cordialidade
Cordialidade é dessas palavras antigas que não fazem barulho. Não gritam, não viralizam, não rendem curtidas fáceis. Mas sustentam relações, constroem pontes invisíveis e evitam guerras desnecessárias no dia a dia. É um substantivo simples, indispensável e, infelizmente, em extinção.
Ser cordial não é ser submisso, nem concordar com tudo. É saber discordar sem ferir. É olhar nos olhos, responder uma mensagem, agradecer, pedir licença, pedir desculpa quando erra. É cumprimentar o porteiro, ouvir sem interromper, tratar o outro como gente, mesmo quando o outro não pensa como você.
No trânsito, a cordialidade é dar passagem. No trabalho, é respeitar o tempo e o espaço do colega. Em casa, é falar com calma quando o cansaço pede grito. Na vida, é entender que ninguém vence todas as discussões, mas muitos perdem relacionamentos por não saberem conversar.
Nas redes sociais, então, ela quase desapareceu. A tela virou escudo. Escreve-se o que não se teria coragem de dizer olhando no rosto. Ataca-se antes de compreender. Julga-se antes de perguntar. A falta de cordialidade digital tem contaminado a vida real, quebrando grupos, amizades, famílias e até comunidades inteiras.
O curioso é que a cordialidade nunca cobra nada na hora, mas devolve muito com o tempo. Pessoas cordiais constroem confiança. Criam ambientes mais leves. São lembradas não apenas pelo que disseram, mas por como fizeram os outros se sentirem. A longo prazo, a cordialidade abre portas que a grosseria jamais atravessará.
Talvez o mundo não esteja precisando de mais opinião, mais razão ou mais voz. Talvez esteja precisando de mais cuidado. De mais silêncio respeitoso. De mais palavras ditas com o coração e não com o dedo no teclado e os olhos em fulgor.
Porque no fim das contas, a cordialidade não é fraqueza. É maturidade. É inteligência emocional. É humanidade em estado puro. E se ela anda em extinção, talvez o maior ato de coragem hoje seja simples: ser gentil, mesmo quando ninguém está olhando.
Ouso dizer ainda, como neurologista, que cordialidade é a moeda de troca do século. Aqueles que a tem, ricos estão. Ricos de saúde mental, de bons amigos, relacionamentos prósperos e felicidades.
Na sua ausência, pura amargura.
Sejamos mais corteses. Atenciosos. Polidos. Gentis.
Menos buzina. Mais bons-dias. Menos olhares baixos. Mais sorrisos.

