Ministério da Saúde decide não incorporar vacina contra herpes-zóster ao SUS

O Ministério da Saúde decidiu não incorporar a vacina contra herpes-zóster, doença conhecida popularmente como cobreiro, ao Sistema Único de Saúde (SUS). A decisão foi publicada nesta segunda-feira (12) no Diário Oficial da União e se refere ao imunizante recombinante adjuvado, avaliado para uso em idosos com 80 anos ou mais e em pessoas imunocomprometidas a partir dos 18 anos.
A conclusão foi tomada após análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), responsável por avaliar evidências científicas, custo-efetividade e impacto orçamentário antes da inclusão de medicamentos, vacinas ou procedimentos na rede pública. Segundo a portaria, a vacina não será incorporada nas indicações analisadas, embora o tema possa ser reavaliado futuramente caso surjam novos dados.
O que é a vacina contra herpes-zóster
A vacina tem como objetivo prevenir a reativação do vírus varicela-zóster, causador da catapora. Após a infecção inicial, o vírus permanece latente no organismo e pode se manifestar novamente décadas depois, sobretudo com o envelhecimento ou a queda da imunidade.
O imunizante avaliado pela Conitec é o único disponível atualmente no Brasil e representa um avanço em relação às versões anteriores. “As vacinas mais antigas tinham eficácia menor, proteção de curta duração e desempenho pior justamente nos mais idosos”, explica o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações.
“A vacina recombinante mudou esse cenário, com eficácia em torno de 90%, independentemente da idade”, completa.
Risco maior em idosos e imunocomprometidos
O herpes-zóster é mais comum em pessoas idosas e em indivíduos com o sistema imunológico comprometido. Além das lesões cutâneas, a doença pode evoluir para a neuralgia pós-herpética, caracterizada por dor intensa e persistente, que pode durar meses ou até anos.
“Não é por acaso que a vacina é licenciada rotineiramente a partir dos 50 anos e indicada, em alguns casos, desde os 18 para pessoas imunocomprometidas”, afirma Kfouri.
O que dizem os estudos recentes
Pesquisas recentes vêm investigando possíveis benefícios indiretos da vacina. Uma meta-análise internacional apresentada em 2025 no Congresso Europeu de Cardiologia apontou menor incidência de eventos cardiovasculares, como infarto e AVC, entre pessoas vacinadas contra herpes-zóster. A redução foi estimada em até 18%.
Outro estudo, publicado na revista Nature, analisou mais de 280 mil adultos no Reino Unido e observou menor frequência de novos diagnósticos de demência entre vacinados ao longo de sete anos. Especialistas destacam, no entanto, que esses resultados não alteram as indicações formais da vacina nem substituem ensaios clínicos randomizados.
Por que a vacina não entrou no SUS
Apesar da alta eficácia do imunizante, a incorporação ao SUS envolve critérios além do benefício clínico. “A discussão não é se a vacina funciona — ela funciona muito bem. O ponto central é custo-efetividade e impacto orçamentário”, afirma Kfouri.
Segundo o Ministério da Saúde, a Conitec considerou que a incorporação da vacina, nas condições avaliadas, não seria custo-efetiva. A estimativa indicou impacto orçamentário superior a R$ 5,2 bilhões em cinco anos. Para comparação, todos os medicamentos distribuídos pelo programa Farmácia Popular somaram R$ 4,2 bilhões no ano passado.
A pasta informou ainda que o laboratório responsável não apresentou nova proposta até o momento, mas afirmou manter interesse na incorporação do imunizante, desde que haja negociação de valores compatíveis com o orçamento do SUS.
Quem tem acesso à vacina hoje
Atualmente, a vacina contra herpes-zóster está disponível apenas na rede privada. A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda a vacinação de rotina a partir dos 60 anos e considera sua aplicação a partir dos 50. Para pessoas imunocomprometidas, a indicação pode começar aos 18 anos, conforme a condição clínica.
Cada dose custa, em média, entre R$ 900 e R$ 1.200. Como o esquema completo exige duas doses, o valor total pode chegar a R$ 2.400.

